Zeitgeist: Análise e Resposta

Tradução: https://teismocristao.wordpress.com

Autor e Fonte: Always Be Ready Apologetics Ministry (http://bit.ly/response-zeitgeist)

Zeitgeist (uma frase alemã que significa “o espírito da era”) é o nome de um vídeo online (primeiro publicado em Junho de 2007) que está fazendo um grande impacto em sua audiência. Nesse vídeo, Peter Joseph, o escritor e diretor, procura persuadir sua audiência de que os autores do Novo Testamento pegaram emprestadas as ideias do nascimento virginal, nascimento em 25 de Dezembro, 12 discípulos, milagres, crucificação e ressureição de Jesus de fontes astrológicas e antigas religiões de mistério pagãs que já estavam por aí bem antes do tempo de Cristo. O vídeo chega até mesmo a afirmar que Jesus nunca existiu. Bem, essas alegações são tão escandalosas que estamos felizes que você tenha tomado um tempo para investigá-las, pois, como você verá em breve, há uma abundância de evidências de que Peter Joseph errou grandiosamente em suas afirmações.

A seguir você encontrará algumas das afirmações no vídeo seguidas por respostas e citações úteis de estudiosos, historiadores, experts em religiões mundiais, apologistas cristãos, entre outros, além de links para artigos e livros detalhados que oferecem uma refutação muito mais completa de muitos dos erros na primeira parte do filme. (A segunda e terceira partes do filme lidam com áreas fora do âmbito desse ministério.)


AFIRMAÇÃO 1: O RELATO DA RESSURREIÇÃO FOI ROUBADO DE FONTES ANTERIORES

RESPOSTA:

Charlie Campbell, Diretor do Always Be Ready Apologetics Ministry [Ministério Apologético Sempre Esteja Pronto], diz: “Muitas das acusações avançadas em ZeitgeistI são baseadas em ideias antigas e desmentidas que estavam em circulação no inicio do século passado. Aqui um exemplo: Zeitgeist afirma que Átis (uma divindade romana) foi crucificado, morreu por três dias e então foi ressuscitado. Isso é absolutamente infiel ao relato mitológico. Na história mitológica, Átis foi infiel à sua amante deusa, e em fúria de ciúmes ela o tornou insano. Em tal insanidade, Átis se castrou e correu para a floresta, onde ele sangrou até a morte. Como J. Gresham Machen nota, “O mito não contém nenhum relato de ressurreição; tudo que Cibele [a Grande Deusa Mãe] consegue obter é que o corpo de Átis fosse preservado, que seu cabelo continuasse crescendo e que seu mindinho se movesse.” As afirmações de Zeitgeist de que Átis foi crucificado e ressuscitado são não apenas erradas, como também muito enganadoras. E essa é apenas a ponta do iceberg. A suposta ressurreição de Átis nem ao menos é mencionada até depois de 150 d.C., bem depois da época de Jesus.”

Dr. Norman Geisler, autor de mais de 60 livros, escreve: “O primeiro paralelo real de um deus que more e ressuscita não aparece até 150 d.C., mais de cem anos depois da origem do Cristianismo. Então se houve influencia de um sobre o outro, foi a influencia do evento histórico do Novo Testamento [ressurreição] na mitologia, não o contrário. O único relato conhecido de um deus sobrevivendo à morte anterior ao Cristianismo é o culto Egípcio ao deus Osíris. Nesse mito, Osíris é cortado em catorze partes, espalhado pelo Egito e então remontado e trazido de volta à vida pela deusa Isis. Entretanto, Osíris não volta de fato à vida física, mas se torna um membro de um submundo sombrio…Isso é bem diferente do relato da ressurreição de Jesus, no qual ele era o Príncipe da vida gloriosamente ressuscitado que foi visto por outros na terra antes de sua ascensão ao céu….mesmo se existirem mitos sobre deuses que morrem e ressuscitam antes do Cristianismo, isso não quer dizer que o Novo Testamento copiou eles. A série ficcional de TV Jornada nas Estrelas precedeu o programa de Ônibus Espacial americano, mas isso não quer dizer que os relatos jornalísticos de missões de ônibus espaciais são influenciados por episódios de Jornada nas Estrelas!” (Não tenho fé suficiente para ser ateu, 2004, p. 312).

Dr. Alister McGrath, Professor de Teologia Histórica na Universidade de Oxford, diz: “Paralelos entre os mitos pagãos de deuses que morrem e ressuscitam e os relatos da ressurreição de Jesus no Novo Testamento são agora considerados remotos, para dizer o mínimo…Se alguém tomou ideias emprestadas de alguém, parece que foram os gnósticos que tomaram ideias Cristãs.” (Intellectuals Don’t Need God and Other Modern Myths [Intelectuais Não Precisam de Deus e Outros Mitos Modernos], 1993, p. 121).

Charlie Campbell diz: “Zeitgeist afirma que Mitra, uma divindade mitológica Persa, morreu por três dias e foi ressuscitado. Eu não sou um estudioso do antigo Mitraísmo, mas em nenhum lugar em tudo que já li sobre esse tópico a morte de Mitra sequer chegou a ser discutida, muito menos a história de Zeitgeist sobre três dias em uma cova e uma ressurreição. Edwin Yamauchi, um historiador e autor do livro de 578 páginas Persia and the Bible [A Pérsia e a Bíblia], concorda. Ele diz: ‘Nós não sabemos nada sobre a morte de (The Case for the Real Jesus [O Caso pelo Verdadeiro Jesus], p. 172).”

Dr. Gary Habermas e Dr. J.P. Moreland escrevem: “Nenhum caso claro de qualquer alegado ensinamento ressurrecional aparece em qualquer texto pagão antes do final do segundo século d.C., quase cem anos depois do Novo Testamento ter sido escrito.” (Citado por Dan Story em The Christian Combat Manual: Helps for Defending your Faith: A Handbook for Practical Apologetic [O Manual de Combate Cristão: Ajudas para Denfender sua Fé: Um manual para Apologética Prática] ,2007, p.206).

Dr. William Lane Craig diz: “(N)ós não encontramos quase nenhum vestígio de cultos de deuses que morrem e ressuscitam na Palestina do primeiro século. Além disso, como Hans Grass observa, seria “impensável”, em qualquer caso, que os discípulos iriam vir a acreditar sinceramente que Deus havia ressuscitado Jesus de entre os mortos só por terem ouvido mitos sobre Osíris!” (Dr. William Lane Craig, “Resposta a Evan Fales: On the Empty Tomb of Jesus” [Resposta à Evan Fales: Sobre a Tumba Vazia de Jesus], 2001).

Dr. Ronald Nash, o autor de muitos livros, incluindo The Meaning of History [O Significado da História] e The Gospel and the Greeks: Did the New Testament Borrow from Pagam Thought? [O Evangelho e os Gregos: O Novo Testamento Tomou Emprestado o Pensamento Pagão?] escreve: “Que deuses de mistérios de fato experimentaram uma ressurreição de entre os mortos? Certamente nenhum dos primeiros textos referem-se a alguma ressurreição de Átis. Tentativas de ligar a adoração de Adônis à ressurreição são igualmente fracas. Nem é o caso para uma ressurreição de Osíris mais forte. Após Isis reunir as peças do corpo desmembrado de Osíris, ele se tornou “Senhor do Submundo.”….E, é claro, nenhuma afirmação pode ser feita de que Mitras fosse um deus que morre e ressuscita. O estudioso francês Andre Boulanger conclui: “A concepção de que o deus morre e é ressuscitado para levar seus fiéis à vida eterna não é representada em nenhuma religião de mistérios Helenística.” (The Gospel and the Greeks: Did the New Testament Borrow from Pagan Thought?, p. 161-162)

H. Wayne House escreve: “Várias religiões de mistérios existiriam desde os tempos primordiais na Grécia; porém, é apenas após o primeiro século d.C. que nós começamos a ter muitos dados sobre elas. É mais provável, portanto, que as religiões de mistérios, observando o sucesso do Cristianismo ortodoxo, começaram a imitar suas crenças e práticas, e não o contrário.” (Citado por Dan Story em The Christian Combat Manual: Helps for Defending your Faith: A Handbook for Practical Apologetics, 2007, p. 207).

Dr. Ben Witherington, um eminente estudioso do Novo Testamento e autor de mais de 30 livros, escreve: “Eis aqui o grande ponto: Joseph [o produtor de Zeitgeist] lê a história de Jesus retroativamente nessas outras histórias mitológicas, e então afirma –shazam- que a história de Jesus advém dessas outras histórias, que ele leu anacronicamente à luz da história de Jesus. Isso é tanto má história como má análise religiosa. Em meu conhecimento não há nenhuma história datada antes do tempo de Jesus que tenha a maior parte dos elementos específicos listados no filme como distinguindo a história de Jesus. Por exemplo: a história de uma concepção virginal, crucificação ou ressurreição de um filho divino de Deus.” (The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie'” [O Zeitgeist do ‘filme Zeitgeist’])

AFIRMAÇÃO 2: O RELATO DOS TRÊS REIS FOI ROUBADO

RESPOSTA:

Charlie Campbell diz: “A afirmação no filme Zeitgeist de que o Cristianismo roubou a ideia de “três reis” para sua história de natal de religiões antigas é ridícula. A Bíblia não sabe nada sobre “três reis” aparecendo após o nascimento de Jesus. Três reis é uma ideia que aparece ocasionalmente em cartões de Natal mal pesquisados, mas não na Bíblia. O Evangelho de Mateus simplesmente diz “E, tendo nascido Jesus em Belém de Judéia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos [na tradução inglesa –e, acredito, mais correta -, magis] vieram do oriente a Jerusalém” (Mat. 2:1). Os magi eram conhecidos como homens sábios, não reis. Durante a Idade Média uma lenda de fato se desenvolveu de que os magi eram reis e de que eles eram três em número, mas isso é pura lenda, não algo ensinado nas Escrituras. O ataque enganoso de Zeitgeist à credibilidade dos relatos Evangélicos só revela a sua falta de credibilidade quando se trata de pesquisa acadêmica.”

Joel McDurmon escreve: “Zeitgeist nos informa que os “três reis” são as três estrelas mais brilhantes da constelação do cinturão de Orion, que se alinha com Sirius (a Estrela no Leste) para apontar para o local do nascer do sol. O filme nos garante que “Essas 3 estrelas brilhantes são chamadas hoje da mesma forma que eram em tempos passados: Os Três Reis.” O mesmo antigo problema, porém: nenhuma fonte, exceto seus autores de estimação do século dezenove; nada antes de 1822.” (Zeitgeist The Movie Exposed: Is Jesus an Astrological Myth? [Zeitgeist O Filme Exposto: É Jesus um Mito Astrológico?], p.42).

AFIRMAÇÃO 3: JESUS NUNCA EXISTIU

RESPOSTA:

Charlie Campbell diz: “Insistir que Jesus Cristo é um mito, que Ele nunca existiu, como o filme Zeitgeist faz, é tolice. Além dos vinte e sete documentos do Novo Testamento que verificam que Ele viveu, há trinta e nove fontes fora da Bíblia, escritas no prazo de 150 anos da vida de Jesus que O mencionam. Essas fontes incluem o Talmude Judeu, o historiador romano Tácito, o Didache, Flávio Josefo, Plinio o Jovem, Suetônio, os evangelhos Gnósticos (exemplo: o evangelho de Tomé), etc. Essas fontes extrabíblicas nos revelam mais de 100 fatos sobre Sua vida, ensinos, morte e até mesmo ressurreição. A Encyclopedia Brittanica, decima quinta edição, devota 20,000 palavras à pessoa de Jesus Cristo e nenhuma vez sugere que Ele não existiu. Não seja enganado por Zeitgeist, “Porque já muitos enganadores entraram no mundo, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne” (2 João 7).”

Ben Witherington diz: “Tanto historiadores judeus como Josefo, quanto romanos como Tácito e – mais tarde – Suetônio, são perfeitamente claros de que Jesus realmente existiu, e Tácito nos diz que ele morreu em uma cruz, sendo crucificado sob Pilatos. Aparentemente, o Sr. Joseph [produtor de Zeitgeist] não conseguiu obter nem esse único fato direito. Há mais evidência histórica para a existência de Jesus do que há para a existência de Júlio César, por exemplo….As únicas pessoas que duvidam da existência de Jesus de Nazaré são aquelas que ou odeiam o cristianismo e -por isso- querem que ele desapareça, ou aquelas que não se deram ao trabalho de fazer o dever de casa histórico adequado.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie’”).

Para ajuda adicional nesse assunto, leia: “Did Jesus Really Exist?” [Jesus existiu mesmo?] pelo Dr. Paul L. Maier ou “Ancient Non Christian Sources for the Life of Christ” [Fontes antigas não cristãs para a Vida de Jesus Cristo] pelo Dr. Gary Habermas.

AFIRMAÇÃO 4: A DATA 25 DE DEZEMBRO FOI ROUBADA

RESPOSTA:

Charlie Campbell diz: “Outra crítica lamentável avançada no filme Zeitgeist é que os autores do Novo Testamento tomaram a data 25 de dezembro para o nascimento de Jesus emprestada de fontes pagãs antigas. Isso é ridículo. Será que os produtores de Zeitgeist ao menos leram o Novo Testamento? Onde no Novo Testamento nós temos qualquer data associada ao nascimento de Jesus? Em lugar nenhum! Não temos a menor ideia de quando Jeus nasceu. A data 25 de Dezembro se originou bem antes dos Evangelhos serem escritos. Edwin Yamauchi, um autor, professor, historiador de primeira categoria e autoridade no mundo dos primeiros cristãos, diz que não foi até 336 d.C. que 25 de Dezembro se tornou a data oficial para celebrar o nascimento de Jesus. A ausência absoluta de qualquer data nos documentos do Novo Testamento é suficiente para anular a afirmação de Zeitgeist; a palavra de Yamauchi sobre o assunto é outro prego no caixão.”

Dr. Ben Witherington diz: “A Bíblia não diz nada sobre a data ou época especifica do nascimento de Jesus. A maioria dos estudiosos pensa que foi durante a primavera devido à descrição dos pastores estando nos campos com suas ovelhas.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie’”)

AFIRMAÇÃO 5: O RELATO DO NASCIMENTO VIRGINAL FOI ROUBADO

RESPOSTA:

Daniel B. Wallace escreve: “O nascimento virginal do deus pagão Dionísio é atestado somente em fontes pós-cristãs…vários séculos após Cristo.” (Reinventing Jesus [Reinventando Jesus], p. 242).

Edwin Yamauchi diz: “Não há evidência de um nascimento virginal para Dionísio. De acordo com a história, Zeus, disfarçado de humano, se apaixonou pela princesa Semele, a filha de Cadmus, e ela ficou grávida. Hera, que era rainha de Zeus, tomou providências para que ela fosse carbonizada, mas Zeus salvou o feto e costurou-o à sua própria coxa até Dionísio nascer. Então, isso não é um nascimento virginal de maneira alguma” (The Case for the Real Jesus, p.180)

Edwin Yamauchi diz: “Apesar das alegações de óbvios e profundos paralelos entre o Cristianismo e o Mitraísmo, quando se olha para a evidência uma imagem completamente diferente emerge. Primeiro, Mitra não era pensado como tendo nascido de uma virgem nos mitos mais antigos; pelo contrário, ele surgiu espontaneamente de uma pedra em uma caverna.” (Citado em Reinventing Jesus, p. 242). Lee Strobel adiciona: “A não ser que a pedra seja considerada uma virgem, esse paralelo à Jesus evapora.” (The Case for the Real Jesus, p. 171).

Charlie Campbell diz: “O nascimento virginal do Messias tratado em Mateus e Lucas não foi retirado de religiões pagãs. Ele foi a realização de uma profecia dada no livro de Isaias (7:14), do Antigo Testamento, seis ou sete séculos antes do nascimento de Jesus. E muitos comentaristas bíblicos também acreditam que Gênesis 3:15 profetiza o nascimento virginal, visto que o Messias nasceria apenas da  semente da mulher.”

Charlie Campbell diz: “O filme Zeitgeist diz que Krishna, uma susposta encarnação do deus Hindu Vishnu, nasceu de uma virgem. Edwin Yamauchi diz “Isso não está correto. Krishna nasceu de uma mãe que já tinha sete filhos anteriores, como até seus seguidores concedem.” (Citado por Lee Strobel em The Case for the Real Jesus, p. 182).

AFIRMAÇÃO 6: A ÉPOCA DO NASCIMENTO DE JESUS ESTÁ CONECTADA AO CICLO ASTROLÓGICO

Ben Witherington escreve: “Muito caso é feito pelo Sr. Joseph [produtor de Zeitgeist] sobre como em 1 d.C. uma nova ‘era’ ou ciclo astrológico começa, após a era do Carneiro. Infelizmente para o Sr. Joseph, Jesus nasceu em algum ano entre 2 e 6 a.C. Ele não nasceu em 1 a.C. Como sabemos disso? Porque Jesus nasceu enquanto Herodes o Grande ainda era rei da Terra Santa, e os registros são claros de que Herodes morreu em cerca de 2 a.C., portanto, Jesus tem que ter nascido antes disso (veja meus artigos sobre esse assunto no Dictionary of Jesus and the Gospels [Dicionário de Jesus e dos Evangelhos]). Como, então, nós temos nosso calendário moderno? Bem, ele foi definido por um homem chamado Dionísio o Menor…que tinha muito tempo livre em mãos, e estimou a virada da era como estando no momento em que a temos agora, baseando-se em quando ele pensou que Jesus nasceu. Ele errou por  cerca de quatro anos. De qualquer maneira, o nascimento de Jesus ocorre antes da suposta mudança de eras no esquema astrológico apregoado pelo Sr. Joseph. O nascimento de Jesus certamente não inaugurou a era de Pisces, ou peixe. O símbolo do peixe surge no Cristianismo do valor gemátrico da palavra Grega ICHTHUS, com cada letra representando uma palavra, nesse caso Insous, Christos, theos, uios e soter  – Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. Seria muito agradável se ele ao menos tivesse entendido a parte astrológica e simbólica direito – mas, infelizmente, abandone a esperança, ele não fez sua lição de casa direito nem mesmo sobre esse assunto.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie’”)

AFIRMAÇÃO 7: A HISTÓRIA DA VIDA DE JESUS FOI ROUBADA DO MISTRAÍSMO

RESPOSTA:

Charlie Campbell escreve: “Zeitgeist afirma que os eventos ao redor da vida de Mitra foram roubados pelos autores do Novo Testamento. Essas afirmações não são dignas de confiança. Até mesmo a Encyclopedia Britannica concede que o Mitraísmo (a religião associada à Mitra) não poderia ter influenciado os escritores do Evangelho. Ela afirma: “Há pouca atenção ao deus Persa [Mitra] no mundo Romano antes do inicio do século 2; entretanto, do ano 136 d.C. em diante, há milhares de inscrições dedicatórias à Mitra. Essa renovação de interesse não é facilmente explicada. A hipótese mais plausível parece ser que o Mitraísmo Romano era praticamente uma nova criação, forjada por um gênio religioso que pode ter vivido tão tarde quanto cerca de 100 a.C. e que deu às tradicionais cerimônias persas uma nova interpretação Platônica que permitiu ao Mitraísmo se tornar aceitável ao mundo Romano” (Artigo: Mitraísmo, edição de 2004). Os quatro Evangelhos foram feitos bem antes do fim do primeiro século. Se o Mitraísmo nem mesmo era conhecido no mundo romano no primeiro século, como a Encyclopedia Britannica afirma, então é equivocado sugerir que ensinamentos relacionados à Mitra influenciaram os escritores do Evangelho.”

Ron Nash escreve: “Alegações de uma dependência dos primeiros cristãos em relação ao Mitraísmo foram rejeitadas em muitas bases. O Mitraísmo não possuía nenhum conceito de morte e ressurreição para seu deus e nenhum lugar para qualquer conceito de renascimento – pelo menos em seus estágios iniciais…. Durante os estágios iniciais do culto, a noção de renascimento teria sido estranha à sua perspectiva básica….Além disso, o Mitraísmo era basicamente um culto militar. Portanto, é preciso ser cético sobre sugestões de que ele atraía pessoas não militares como os primeiros cristãos. (Christianity and the Hellenistic World [O Cristianismo e o Mundo Helenístico], p. 144).

Ben Witherington escreve: “Nós, de fato, não temos nenhuma fonte antiga sobre Mitra comparável ao que nós temos sobre Moisés e os Israelitas. Quase tudo que sabemos sobre o Mitraísmo vem da era do NT e depois. Não há nenhuma boa razão histórica para pensar que o Mitraísmo é a origem seja do Judaísmo ou do Cristianismo.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie’”)

O apóstolo Pedro escreveu: “De fato, não seguimos fábulas engenhosamente inventadas, quando lhes falamos a respeito do poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; pelo contrário, nós fomos testemunhas oculares da sua majestade. Ele recebeu honra e glória da parte de Deus Pai, quando da suprema glória lhe foi dirigida a voz que disse: “Este é o meu filho amado, em quem me agrado”. Nós mesmos ouvimos essa voz vinda do céu, quando estávamos com ele no monte santo” (2 Pedro 1:16-18)

AFIRMAÇÃO 8: A HISTÓRIA DA CRUCIFICAÇÃO FOI ROUBADA

RESPOSTA:

O Dr. Edwin Bryant é Professor de Hinduísmo na Rutgers University e um estudioso do Hinduísmo. Ele Traduziu o Bhagavata-Purana (vida de Krishna) para Peguine World Classics [Clássicos Mundiais Peguine] e é o autor de Krishna: A Sourcebook [Krishna: Um livro-fonte]. Quando perguntado sobre a afirmação de que Krishna [um deus Hindu] havia sido crucificado, ele respondeu: “Isso é um absoluto e completo absurdo. Não há absolutamente nenhuma menção, em lugar algum, que aluda a uma crucificação”. Ele adicionou que Krishna foi morto por uma flecha  de um caçador que acidentalme1nte atirou em seu calcanhar. Ele morreu e então ascendeu. Não foi uma ressurreição. (Citado em “A Refutation of Acharya S’s book, The Christ Conspiracy [Uma Refutação do livro de Acharya S, A Conspiração de Cristo] por Mike Licona. The Christ Conspiracy é a fonte de muitas das alegações de Zeitgeist).

Edwin Yamauchi diz: “Todos esses mitos são representações repetitivas, simbólicas da morte e renascimento da vegetação. Essas não são figuras históricas, e nenhuma de suas mortes pretendia providenciar salvação. No caso de Jesus, até mesmo autoridades não Cristãs, como Josefo e Tácito, reportam que ele morreu sob Pôncio Pilatos no reinado de Tibério. Os relatos de sua ressurreição são bem antigos e fundados em relatos de testemunhas oculares. Eles têm um soar de realidade, não as qualidades etéreas de mito.” (Citado por Lee Strobel em The Case for the Real Jesus, p. 178).

AFIRMAÇÃO 9: A IDEIA PARA DOZE DISCÍPULOS FOI TOMADA DAS 12 CONSTELAÇÕES DO ZODÍACO

Joel McDurmon escreve: “Zeitgeist chega a afirmar que “provavelmente o mais óbvio de todos os simbolismos astrológicos ao redor de Jesus diz respeito aos 12 discípulos,” que, o filme afirma, são “as 12 constelações do Zodíaco, com quem Jesus, sendo o Sol, viaja com.” Porque qualquer pessoa consideraria essa a “mais óbvia” de tais evidências eu não sei – eu nunca tinha ouvido ela até agora. Fosse ela tão óbvia você esperaria que ela fosse amplamente afirmada. Adiante, o que a torna tão “óbvia”? A única similaridade entre os dois é o número doze, para o qual exemplos podem ser achados em qualquer lugar. O mais “óbvio” desses, para qualquer pesquisador “real” são as doze tribos de Israel. Como Jesus estava cumprindo a Antiga Aliança, e instituindo a Nova Aliança, ele escolheu doze “Novas” tribos. O próprio Jesus disse que os discípulos sentariam como juízes sobre as doze tribos (Mat. 19:28). Esse é um paralelo histórico genuíno que é reforçado no livro de Apocalipse, quando esses doze são reunidos na Nova Jerusalém (Ap. 21:12-14). Por quê se dar ao trabalho de procurar paralelos tão selvagens nas estrelas quando a Bíblia é auto consistente em seu simbolismo? A teologia Bíblica não precisa da ajuda dos astrólogos, que ela mesma despreza, de qualquer jeito. O filme até nota que “o número 12 é repleto através da bíblia”, mas então esquece o impacto desse fato e conclui, arbitrariamente “Esse texto tem mais a ver com astrologia do que qualquer outra coisa.” Se a Bíblia contém o número 12 repetidamente, pra quê ir fora da Bíblia para interpretar que significância “12 discípulos” podem ter? Fazer isso revela um desejo de impor um significado não-Bíblico ao texto da Bíblia.” (Zeitgeist The Movie Exposed: Is Jesus an Astrological Myth?, p. 56).

Dr. Ben Witherington afirma: “E quanto à afirmação de que os doze discípulos representam as 12 constelações do Zodíaco? Bem… Uma vez mais, o Sr. Joseph [o produtor de Zeitgeist] não se deu o trabalho de fazer seu dever de casa. Existia essa pequena entidade chamada de 12 tribos de Israel, voltando até Jacó e seus 12 filhos. Essas histórias em Gênesis não são nem um pouco astrológicas em caráter, mas, pelo contrário, explicações das origens históricas de um povo. Os 12 discípulos são escolhidos por Jesus, não porque ele era um observador de estrelas, mas porque ele estava tentando reformar, e de fato re-formar, Israel. Os doze discípulos representam as 12 tribos de Israel, e você vai lembrar que Jesus prometeu que durante o eschaton [o reino vindouro de Jesus] esses estarão sentados em 12 tronos, julgando aquelas 12 tribos [veja Mateus 19:28]. Uma vez mais, esse é um tipo de pensamento histórico e escatológico, e não astrológico, e a afirmação de que a Bíblia tem mais a ver com a astrologia que qualquer outra coisa pode apenas ser chamada de erro de categoria. Claramente, o Sr. Joseph não fez nenhum esforço sequer no estudo dos vários gêneros de literatura Bíblica que ele conseguiria em qualquer introdução padrão à Bíblia, incluindo aqueles escritos por agnósticos e céticos.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie’”)

AFIRMAÇÃO 10: HÓRUS NASCEU DE UMA VIRGEM EM 25 DE DEZEMBRO, RESSUSCITOU, ETC

Dr. Ben Witherington diz: “Infelizmente ele [Zeitgeist] erra sobre a maior parte da história de Hórus. Ele afirma que os mitos de Hórus afirmam que ele nasceu em 25 de Dezembro, nascido de uma virgem, estrela no leste, adorado por reis, e que foi um professor aos 12. Isso, ele afirma, era a forma original do mito em 3000 a.C. Seria agradável saber como o Sr. Joseph aprendeu isso, visto que não temos nenhum texto Egípcio antigo que vá tão longe em relação a esse assunto. Além disso, a desinformação que ele passa no filme é refutada por numerosas análises das fontes adequadas…novamente, não apenas é o Sr. Joseph culpado de falsamente misturar várias religiões que se desenvolveram largamente regionalmente e independentes umas das outras, como de falsificar algumas das afirmações feitas em mitos Egípcios…Ironicamente, ele faz um desserviço a todas as religiões que ele discute….Eu poderia continuar comentando sobre os erros egrégios em sua apresentação de Hórus, que não era chamado de cordeiro de Deus, e não foi crucificado e ressuscitado, nem mesmo no mito. A história de Hórus é, obviamente, a história da morte e renascimento do sol no leste, e é baseada em ciclos da natureza, e não em qualquer tipo de reinvindicação histórica, diferentemente da história de Jesus. Mas, mais ao ponto, a história de Hórus não inclui muitos dos elementos que Joseph afirma que inclui – vergonha para ele por não fazer seu dever de casa direito nem em Egiptologia.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie'”)

Dr. Ben Witherington diz: “Não havia tal coisa como o conceito de ressurreição corporal na religião Egípcia, e certamente não de uma divindade mitológica; não se acreditava que Hórus tivesse um corpo humano. De vez em quando comentaristas utilizarão o termo ressurreição para falar livremente sobre um pós-morte em outro mundo, e não um retorno corporal à esse mundo.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie'”)

AFIRMAÇÃO 11: O SÍMBOL ODA CRUZ FOI ROUBADO DE UMA CRUZ NO ZODÍACO

Dr. Ben Witherington diz: “O Sr. Joseph [produtor de Zeitgeist] pensa que isso [a origem do símbolo da cruz] deriva da cruz do Zodíaco imposta no círculo dos 12 signos astrológico do Zodíaco. Há vários problemas com essa teoria. Primeiro considere o padrão zodiacal mais antigo e básico que possuímos –por exemplo, no chão da sinagoga de Sepphoris. Judeus, como todo outro grupo de pessoas agrárias, se interessavam no clima e nas estações. Nós encontramos um padrão de cruz? [veja a imagem do zodíaco à esquerda]….Meu caso é símbolo. O Sr. Joseph não fez nenhum trabalho histórico de primeira mão sobre símbolos zodiacais antigos, ele simplesmente acreditou nas tolices embebidas nele por várias fontes antiquadas e incorretas. A origem do símbolo da cruz, é claro, deriva da prática romana da crucificação, não de algum suposto padrão astrológico. Jesus morreu em 30 d.C. em uma cruz do lado de fora de Jerusalém, uma vítima da injustiça romana, como até os romanos admitiram. (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie'”)


AFIRMAÇÃO 12: OS TRABALHOS DE JOSEFO SÃO CONHECIDAMENTE FRAUDULENTOS E PORTANTO NÃO SÃO BOAS EVIDÊNCIS EXTRABÍBLICAS DA EXISTÊNCIA DE JESUS

Dr. Ben Witherington diz: “Os trabalhos de Josefo certamente não são fraudulentos. Como é típico do Sr. Joseph [produtor de Zeitgeist], ele pode ter ouvido que provavelmente existem algumas interpolações cristãs nas edições tardias de Josefo, visto que cristãos amavam e utilizavam a obra; porém, todos os estudiosos de Josefo que eu conheço na guilda, e há alguns muito bons (Greg Sterling e Steve Mason me vêm à mente) são bem claros de que esses são trabalhos genuínos de Josefo. O ponto importante para nossos propósitos é que nenhum estudioso de Josefo, conhecido por mim, incluindo aqueles que são Judeus, pensa que as passagens em suas obras sobre João Batista e Jesus são todas interpolações tardias.” (“The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie'”)

Louis Feldman, o proeminente estudioso de Josefo e autor, que não é cristão, disse: “Minha estimativa é que a razão daqueles [estudiosos] que de alguma maneira aceitam o Testimonium [em relação aqueles que rejeitam tudo como interpolação] seria de pelo menos 3 para 1. Eu não me surpreenderia se ela fosse tão grande quanto 5 para 1.” (Em um email para o estudioso do Novo Testamento Mike Licona)

AFIRMAÇÃO 13: A HISTÓRIA DA ARCA DE NOÉ É PLAGIARIZADA DE OUTRAS FONTES

Joel McDurmon escreve: “Zeitgeist nos conta que a história da Arca de Noé e do Dilúvio não é única: O conceito de um Grande Dilúvio é ubíquo ao redor do mundo antigo, com cerca de 200 afirmações citadas em diferentes períodos e épocas.” É agradável ver que o pessoal do Zeitgeist está finalmente alcançando estudiosos Cristãos em um assunto. Nós estamos apontando o fenômeno mundial de histórias de dilúvio já há décadas agora, tentando fazer as pessoas perceberem que o dilúvio de fato ocorreu! Agora Zeitgeist vêm e decide usar esse fato contra nós? Esses caras estão tão ansiosos para achar paralelos que eles nem pararam pra pensar: paralelos as vezes trabalham em apoio à Bíblia, não contra ela. Afinal, se realmente ocorreu um dilúvio mundial milhares de anos atrás, encontrar múltiplas tradições da mesma história ao redor de todo o mundo é exatamente o que devemos esperar. E é isso que de fato encontramos. Quase todas essas tradições de dilúvio recordam um dilúvio universal em que apenas uma pequena parcela da população é salva. Alguns adicionam a construção de uma arca e a salvação dos animais. Alguns recordam a arca pousando em uma montanha; alguns o envio de pássaros, etc. É simplesmente racional que algumas lendas mais antigas, especialmente aquelas que permaneceram geograficamente próximas e similares em linguagem, por acaso tenham uma tradição similar àquela da Bíblia. (Zeitgeist The Movie Exposed: Is Jesus an Astrological Myth?, p. 61-62).”

UM SUMÁRIO DE SETE ARGUMENTOS CONTRA A DEPENDÊNCIA CRISTÃ EM RELIGIÕES DE MISTÉRIOS POR RON NASH:

(1) Os argumentos oferecidos para “provar” uma dependência Cristã nos mistérios ilustra a falácia lógica da falsa causa. Essa falácia é cometida sempre que alguém raciocina que só porque duas coisas existem lado-a-lado, uma delas tem que ter causado a outra. Como todos deveríamos saber, mera coincidência não prova conexão causal. E nem similaridade prova dependência.

(2) Muitas das alegadas similaridades entre o Cristianismo e os mistérios são ou grandemente exageradas ou fabricadas. Estudiosos vez ou outra descrevem rituais pagãos em uma linguagem que eles tomam emprestada do Cristianismo. O uso descuidado da linguagem pode levar alguém a falar de uma “Última ceia” no Mitraísmo ou um “batismo” no culto de Isis. É um absurdo indesculpável pegar a palavra “salvador” com todas as suas conotações Neotestamentárias e aplica-la à Osíris ou Átis como se eles fossem deuses-salvadores em qualquer sentido similar.

(3) A cronologia está toda errada. Quase todas nossas fontes de informação sobre as religiões pagãs que alegadas como tendo influenciado o cristianismo primitivo são datadas muito tardiamente. Nós frequentemente encontramos escritores citando documentos escritos 300 anos depois de Paulo em uma tentativa de produzir ideias que supostamente influenciaram Paulo. Devemos rejeitar a suposição de que apenas porque um culto tinha certa crença ou prática no terceiro ou quarto século após Cristo isso implica que ele tinha a mesma crença ou prática no primeiro século.

(4) Paulo nunca teria conscientemente tomado algo emprestado de religiões pagãs. Todas nossas informações sobre ele tornam altamente improvável que ele fosse, em qualquer sentido, influenciado por fontes pagãs. Ele punha grande ênfase em seu treinamento inicial em uma forma estrita de Judaísmo (Fp. 3:5). Ele advertia os Colossenses contra o próprio tipo de influência que proponentes de sincretismo cristão atribuem a ele, isto é, deixar suas mentes serem capturadas por especulações estrangeiras (Cl. 2:8).

(5) O Cristianismo Primitivo era uma fé exclusivista. Como J. Machen explica, as religiões de mistérios eram não-exclusivas. “Um homem poderia se tornar um iniciado nos mistérios de Isis ou Mitras sem ter que abandonar suas antigas crenças; porém, se ele quisesse ser recebido na Igreja, de acordo com a pregação de Paulo, ele deveria esquecer todos os outros Salvadores pelo Senhor Jesus Cristo….No meio do sincretismo prevalecente do mundo Greco-Romano, a religião de Paulo, juntamente com a religião de Israel, está absolutamente sozinha.” Esse exclusivismo Cristão deveria ser um ponto de partida para toda a reflexão sobre as possíveis relações entre o Cristianismo e seus competidores pagãos. Qualquer sugestão de sincretismo no Novo Testamento teria causado controvérsia imediata.

(6) Ao contrário dos mistérios, a religião de Paulo estava baseada em eventos que de fato haviam acontecido na história. O misticismo dos cultos de mistérios eram essencialmente não históricos. Seus mitos eram dramas, ou gravuras, daquilo pelo que passava o iniciado, não de eventos históricos reais, como Paulo considerava que fossem a morte e ressurreição de Cristo. A afirmativa Cristã de que a morte e ressurreição de Cristo aconteceram a uma pessoa histórica em um período particular não tem absolutamente nenhum paralelo em nenhuma religião de mistérios pagã.

(7) Os poucos paralelos que permanecem podem refletir uma influência Cristã nos sistemas pagãos. Como Bruce Metzger argumentou: “Não se pode presumir acriticamente que os Mistérios sempre influenciaram o Cristianismo, pois não é apenas possível, mas provável, que, em certos casos, a influência se moveu na direção oposta.”[22] Não deveria ser surpreendente que líderes de cultos que estavam sendo exitosamente   desafiados pelo cristianismo fizessem algo para combater o desafio. Que jeito melhor de fazer isso do que oferecer um substituto pagão? Tentativas pagãs de combater a crescente influência do Cristianismo imitando-o são claramente aparentes em medidas instituídas por Juliano o Apostata, que foi o imperador Romano de 361 à 363 d.C. (Extraído desse artigo “Was the New Testament Influenced by Pagan Religions” [Foi o Novo Testamento Influenciado por Religiões Pagãs] que primeiro apareceu no Christian Research Journal [Jornal de Pesquisa Cristão], Inverno, 1994).

OUTRAS CITAÇÕES DIVERSAS:

Dr. Ronald Nash diz: “Não é até nós chegarmos ao terceiro século d.C. que encontramos material-fonte suficiente (ou seja, informações sobre as religiões de mistérios obtidas em escritos da época) para permitir uma reconstrução relativamente completa de seu conteúdo. Muitos escritores usam esse material-fonte tardio (após 200 d.C.) para formar reconstruções da experiência de mistérios do século três e então, acriticamente, raciociná-las de volta ao que eles acham que deve ter sido a natureza anterior dos cultos. Essa prática é um estudo excepcionalmente ruim e não deveria ser permitida à existir sem desafio. Informações sobre um culto que vêm várias centenas de anos após o fechamento do cânon do Novo Testamento não podem ser lidas retroativamente no que se presume ter sido o status de um culto durante o primeiro século d.C. A questão crucial  não é que possível influencia as religiões de mistérios tiveram em segmentos da Cristandade após 400 d.C., mas que efeito os mistérios emergentes podem ter tido no Novo Testamento no primeiro século.” (Artigo “Was the New Testament Influenced by Pagan Religions”)

Dr. Ronald Nash diz: “Muitos estudantes universitários cristãos encontraram críticas ao Cristianismo baseadas em afirmações de que o Cristianismo Primitivo e o Novo Testamento tomaram emprestadas importantes crenças e práticas de um grande número de religiões de mistérios pagãs. Visto que essas afirmações minam tais doutrinas centrais ao Cristianismo como a morte e ressurreição de Cristo, as acusações são sérias. Mas a evidência para tais afirmações, quando ela existe, comumente se encontra em documentos escritos vários séculos [depois] do novo testamento. Além disso, os alegados paralelos muitas vezes resultam de estudiosos liberais acriticamente descrevendo crenças e práticas pagãs em linguagem cristã e então se maravilhando com os chocantes paralelos que eles pensam ter descoberto.” (Artigo “Was the New Testament Influenced by Pagan Religions”)

ARTIGOS:

“Was the New Testament Influenced by Pagan Religions” por Ronald Nash

The Zeitgeist of the ‘Zeitgeist Movie'” por Ben Witherington

“A Refutation of Acharya S’s book, The Christ Conspiracy por Mike Licona
[The Christ Conspiracy é a maior fonte de informações de Zeitgeist].

“Christianity, the Resurrection of Christ and the Mystery Religions” pelos Dr. John Ankerberg e Dr. John Weldon

“Was Christianity Borrowed from Mithraism?” por Dr. Norman Geisler

“Paul and the Mystery Religions” por Don Closson

“A Summary Critique: The Mythological Jesus Mysteries” por H. Wayne House

“Ancient Non-Christian Sources for the Life of Christ” por Gary Habermas

Fim da minha tradução aqui. O fim do artigo consiste em áudios e livros recomendados pelo autor do artigo. Aqueles que souberem inglês podem conferi-los no endereço original do artigo, encontrável lá no inicio do meu post. Se quiserem (e puderem) comprá-los, saibam que eles são certamente úteis.

EDIT (21/08/2015: Para quem quiser, uma crítica bem completa de um site cético, citando várias fontes também: http://conspiracies.skepticproject.com/articles/zeitgeist/part-one/)

O problema do mal

William Lane Craig

Tradução: teismocristao.wordpress.com

Examina tanto o argumento lógico quanto o probabilístico contra Deus baseados na existência do sofrimento e do mal.

O problema do mal certamente é o maior obstáculo à crença na existência de Deus. Quando eu reflito sobre ambas a extensão e profundidade do sofrimento no mundo, seja devido à inumanidade do homem contra o homem ou desastres naturais, então eu devo confessar que eu acho difícil acreditar que Deus existe. Com certeza muitos de vocês se sentem do mesmo jeito. Talvez devêssemos todos virar ateus.

Mas esse é um passo muito grande para tomar. Como podemos ter certeza de que Deus não existe? Talvez haja uma razão por que Deus permite todo o mal do mundo. Talvez tudo se encaixe no grande esquema das coisas, que nós apenas vagamente podemos discernir, se é que podemos. Como podemos saber?

Como um teísta cristão, eu estou persuadido que o problema do mal, terrível como ele é, não constitui, no fim, uma refutação da existência de Deus. Pelo contrário, na verdade, eu acho que o teísmo cristão é a ultima boa esperança do homem para resolver o problema do mal.

Para poder explicar porque eu me sinto assim, será proveitoso traçar algumas distinções para manter nosso pensamento claro. Primeiramente, nós devemos distinguir entre o problema intelectual do mal e o problema emocional do mal. O problema intelectual do mal diz respeito à como dar uma explicação racional sobre como Deus e o mal podem coexistir. O problema emocional do mal diz respeito a como dissolver o desgosto emocional das pessoas a um Deus que permitiria sofrimento.

Agora vamos olhar, primeiramente, para o problema intelectual do mal. Existem duas versões desse problema: primeiro, o problema lógico do mal, e, segundo, o problema probabilístico do mal.

De acordo com o problema lógico do mal, é logicamente impossível que Deus e o mal coexistam. Como o mal existe, se segue que Deus não existe.

Mas o problema com esse argumente é que não há nenhuma razão para acreditar que Deus e o mal sejam logicamente incompatíveis. Não há nenhuma contradição explicita entre eles. Porém, se o ateu quer dizer que há alguma contradição implícita entre Deus e o mal, então ele deve estar assumindo algumas premissas ocultas que tragam essa contradição implícita. Mas o problema é que nenhum filósofo jamais foi capaz de identificar tais premissas. Portanto, o problema lógico do mal falha em provar qualquer inconsistência entre Deus e o mal.

Porém, mais que isso: nós podemos de fato provar que Deus e o mal são logicamente consistentes. Veja, o ateu pressupões que Deus não pode ter razões moralmente suficientes para permitir o mal no mundo. Porém, essa hipótese não é necessariamente verdadeira. Contanto que seja ao menos possível que Deus tenha razões moralmente suficientes para permitir o mal, segue-se que Deus e o mal são logicamente consistentes.

E, certamente, isso parece pelo menos logicamente possível. Portanto, eu estou muito satisfeito por poder informar que é amplamente aceito entre os filósofos contemporâneos que o problema lógico do mal foi dissolvido. A coexistência de Deus e mal é logicamente possível.

Mas ainda não escapamos do perigo. Pois agora nós nos confrontamos com o problema probabilístico do mal. De acordo com essa versão do problema, a coexistência de Deus e mal é logicamente possível, mas de qualquer maneira é altamente improvável. A extensão e profundidade do mal no mundo são tão grandes que é improvável que Deus pudesse ter razões moralmente suficientes para permiti-lo. Portanto, dado o mal no mundo, é improvável que Deus exista.

Agora, esse é um argumento muito mais poderoso, e, portanto, eu quero focar nossa atenção nele. Em resposta a essa versão do problema do mal, eu quero fazer três pontos principais:

1. Nós não estamos em uma boa posição para avaliar a probabilidade de Deus ter ou não razões moralmente suficientes para os males que ocorrem. Como pessoas finitas, nós somos limitados em tempo, espaço, inteligência e discernimento. Mas o Deus transcendente e soberano vê do inicio ao fim e providencialmente ordena a história de tal maneira que Seus propósitos são ultimamente atingidos através de decisões humanas livres. A fim de atingir os seus fins, Deus pode ter que aturar certos males ao longo do caminho. Males que nos parecem sem sentido dentro de nosso quadro limitado podem ser considerados como tendo sido justamente permitidos dentro do quadro mais amplo de Deus. Para tomar emprestada uma ilustração de um campo em desenvolvimento da ciência, a Teoria do Caos, cientistas descobriram que certos sistemas macroscópicos, por exemplo, sistemas climáticos ou populações de insetos, são extraordinariamente sensíveis às mínimas perturbações. Uma borboleta vibrando em um graveto no Oeste da África poderia pôr em marcha as forças que poderiam eventualmente dar inicio a um furacão sobre o Oceano Atlântico. Mesmo assim, é impossível, em principio, para qualquer pessoa observando aquela borboleta palpitando em um galho, prever tal resultado. O homicídio brutal de um homem inocente ou uma criança morrendo de leucemia poderiam produzir uma espécie de efeito dominó pela história tal que a razão moralmente suficiente de Deus para permitir isso podem não emergir até séculos depois e talvez em outro local. Quando você pensa sobre a providência de Deus sobre a totalidade da história, eu acho que você pode ver quão sem esperança é, para observadores limitados, especular sobre a probabilidade de que Deus possa ter tido razões moralmente suficientes para permitir certo mal. Nós simplesmente não estamos em uma boa condição para avaliar tais probabilidades.

2. A fé Cristã envolve doutrinas que aumentam a probabilidade da coexistência de Deus e mal. Ao fazê-lo, essas doutrinas diminuem qualquer improbabilidade da existência de Deus supostamente surgida a partir da existência do mal. Quais são algumas dessas doutrinas? Deixe-me mencionar quarto:

a. O propósito principal da vida não é felicidade, mas conhecimento de Deus. Uma razão pela qual o problema do mal parece tão intrigante é que nós tendemos a pensar que se Deus existe, então Seu objetivo para a vida humana é felicidade nesse mundo. O papel de Deus é prover um ambiente confortável para seus bichinhos humanos. Mas, na visão Cristã, isso é falso. Nós não somos os bichinhos de Deus, e o fim do homem não é felicidade nesse mundo, mas o conhecimento de Deus, que ultimamente trará verdadeira e eterna realização humana. Muitos males ocorrem na vida que podem ser totalmente inúteis à meta de produzir felicidade humana nesse mundo, mas eles podem não ser injustificados com respeito a produzir o conhecimento de Deus. Sofrimento humano inocente provê uma ocasião para aprofundar a dependência e confiança em Deus, tanto da parte do sofredor ou àqueles ao seu redor. É claro, se o propósito de Deus é alcançado através de nosso sofrimento dependerá de nossa resposta. Reagiremos com raiva e amargura para com Deus, ou nos voltamos a Ele com fé pela força para resistir?

b. A humanidade está em um estado de rebelião contra Deus e Seu propósito. Em vez de se submeter e adorar a Deus, as pessoas se rebelam contra Deus e seguem seus próprios caminhos, e, com isso, se acham alienados de Deus, moralmente culpados perante Ele, e tateando nas trevas espirituais, perseguindo falsos deuses de sua própria criação. Os terríveis males humanos no mundo são testemunhas à depravação do homem nesse estado de alienação espiritual de Deus. O cristão não é surpreendido pelo mal humano no mundo; pelo contrário, ele o espera. A Bíblia diz que Deus deu a humanidade ao pecado que ela escolheu; Ele não intervém para impedi-la, mas deixa a depravação humana seguir seu rumo. Isso só serve para destacar ainda mais a responsabilidade moral da humanidade diante de Deus, assim como a nossa maldade e nossa necessidade de perdão e purificação moral.

c. O conhecimento de Deus deságua na vida eterna. Na visão Cristã, essa vida não é tudo que há. Jesus prometeu vida eterna a todos aqueles que põe sua confiança nele como seu Salvador e Senhor. Na vida após a morte Deus recompensará aqueles que têm suportado o sofrimento com coragem e confiança com uma vida eterna de alegria indizível. O apóstolo Paulo, que escreveu boa parte do Novo Testamento, viveu uma vida de íncrivel sofrimento. Mesmo assim, ele escreveu: “Não desfalecemos. Porque a nossa leve e momentânea tribulação está nos preparando para um peso eterno de glória além de qualquer comparação, porque não nos atentamos nós nas coisas que se veem, mas as que não se veem, porque as que se veem são temporais, e as que não se veem são eternas” (II Cor. 4:16-18). Paulo imagina uma balança, por assim dizer, em que todos os sofrimentos dessa vida são postos em um lado, enquanto do outro lado é colocada a glória que Deus vai outorgar em seus filhos no céu. O peso da glória é tão grande que é literalmente além de qualquer comparação com o sofrimento. Além disso, quanto mais nós ficamos na eternidade, mais os sofrimentos dessa vida diminuem rumo a um momento infinitesimal. É É por isso que Paulo poderia chamá-los de “uma aflição leve e momentânea”, eles foram simplesmente inundados pelo oceano de eternidade divina e alegria que Deus derrama sobre aqueles que confiam Nele.

d. O conhecimento de Deus é um bem incomensurável. Conhecer Deus, a fonte de infinita bondade e amor, é um bem incomparável, a realização da existência humana. Os sofrimentos dessa vida não podem nem ser comparados a isso. Por isso, a pessoa que conhece Deus, não importa o que ela sofra, não importa quão terrível seja sua dor, ainda pode dizer “Deus é bom pra mim” simplesmente em virtude do fato de ele conhecer Deus, um bem incomparável.

Essas quatro doutrinas cristãs reduzem consideravelmente qualquer improbabilidade que o mal pareceria jogar sobre a existência de Deus.

3. Relativo ao âmbito complete das evidências, a existência de Deus é provável. Probabilidades são relativas à que informação de fundo você considera. Por exemplo, suponha que Joe é um estudante na Universidade do Colorado. Agora suponha que nós somos informados que 95% dos estudantes da Universidade do Colorado esquiam. Relativo a essa informação é altamente provável que Joe esquie. Mas, então, suponha que nós também aprendamos que Joe tem membros amputados e que 95% dos amputados na Universidade do Colorado não esquiam. Repentinamente a probabilidade de Joe ser um esquiador diminuiu drasticamente.

Similarmente, se tudo que você considera como informação de fundo é o mal no mundo, então não é nada surpreendente que a existência de Deus pareça improvável em relação a isso. Mas essa não é a pergunta real. A pergunta real é se a existência de Deus é improvável relativo à totalidade das evidências disponíveis. Eu estou persuadido de que quando você considera a evidência total, então a existência de Deus é bem provável.

Deixe-me mencionar três pedaços de evidência:

a. Deus providencia a melhor explicação de porque o universo existe, ao invés de nada. Você já se perguntou por que qualquer coisa existe, em primeiro lugar? De onde veio tudo? Tipicamente, ateístas disseram que o universo é eterno e não causado. Porém, descobertas na astronomia e astrofísica durante os últimos 80 anos renderam isso improvável. De acordo com o modelo do Big Bang do universo, toda matéria e energia, de fato, o espaço físico e o tempo em si, surgiram em algum ponto cerca de 13.5 bilhões de anos atrás. Antes desse ponto, o universo simplesmente não existia. Portanto, o modelo do Big Bang requer a criação do universo a partir de nada.

Agora, isso tende a ser bem constrangedor para o ateísta. Quentin Smith, um filósofo ateu, escreve:

A resposta de ateus e agnósticos a esse desenvolvimento tem sido comparativamente fraca, de fato quase invisível. Um silêncio desconfortável parece ser a regra quando o assunto surge entre descrentes . . . . A razão do constrangimento de não-teístas não é difícil de encontrar. Anthony Kenny a sugere nessa afirmação: ‘Um proponente da teoria [do Big Bang], ao menos se ele for um ateu, deve acreditar que a matéria do universo veio do nada e por nada.’

Tal dificuldade não confronta o teísta Cristão, visto que a teoria do Big Bang só confirma o que ele sempre acreditou: que no princípio Deus criou o universo. Agora eu lhe pergunto: o que é mais plausível: que o teísta Cristão está certo ou que o universo entrou em existência incausado a partir do nada?

2. Deus oferece a melhor explicação da complexa ordem no universo. Durante os últimos 40 anos, cientistas descobriram que a existência de vida inteligente depende de um complexo e delicado balanço das condições iniciais dadas no próprio big bang. Nós agora sabemos que universos proibidores de vida são vastamente mais prováveis do que qualquer universo que permita a vida como o nosso. Quanto mais provável?

A resposta é que as chances de que o universo possa permitir a vida são infinitesimais ao ponto de serem incompreensíveis e incalculáveis. Por exemplo, uma mudança na força da gravidade ou da força atômica fraca de apenas uma parte em 10100 teria prevenido um universo que permita a vida. A assim chamada constante cosmológica “lambda”, que impulsiona a expansão inflacionária do universo e é responsável pela recentemente descoberta aceleração da expansão do universo está ajustada precisamente em cerca de uma parte em 10120. O físico Roger Penrose, de Oxford, calcula que as chances de a condição especial de baixa entropia do nosso universo, da qual nossa vida depende, ter surgido por chance é pelo menos tão pequena quanto uma parte em 1010(123). Penrose comenta: “Eu não consigo ter ao menos visto alguma outra coisa na física cuja acurácia conhecida se aproxime, mesmo que remotamente, de um número como uma parte em 1010(123).” Há múltiplas quantidades e constantes que precisam ser finamente ajustadas desse jeito para que um universo permita a vida. E não é apenas cada quantidade que precisa ser esquisitamente bem ajustada desse jeito; as proporções entre elas também precisam ser finamente ajustadas. Então improbabilidade é multiplicada por improbabilidade até que nossas mentes estejam enroladas em números incompreensíveis.

Não há nenhum motivo físico porque essas constantes e quantidades devam possuir os valores que elas possuem. O físico uma vez agnóstico Paul Davies comenta: “Através de meu trabalho científico eu vim a acreditar mais e mais fortemente que o universo físico é formado com uma engenhosidade tão incrível que eu não posso aceitar isso meramente como um fato bruto.” Similarmente, Fred Hoyle observa: “Uma interpretação dos fatos pelo senso comum sugere que um super intelecto macaqueou [ou aprontou travessuras] com a física.” Robert Jastrow, ex-dirigente do Instituto Goddard para Pesquisas Espaciais, da NASA, chama essa de a mais forte evidência para a existência de Deus já surgida da ciência.

A visão que os teístas Cristãos sempre mantiveram – de que há um projetista inteligente do universo – parece fazer muito mais sentido do que a visão ateísta de que o universo, quando surgiu incausado do nada, por acaso foi finamente ajustado pela chance com uma precisão incompreensível para permitir a existência de vida inteligente.

3. Valores morais objetivos no mundo. Se Deus não existe, então valores morais objetivos não existem. Muitos teístas e ateístas estão igualmente de acordo nessa questão. Por exemplo, o filósofo da ciência Michael Ruse explica:

A moralidade é uma adaptação biológica não menos do que nossas mãos e pés e dentes. Considerada como um conjunto de afirmações racionalmente justificáveis sobre um algo objetivo, a ética é ilusória. Eu aprecio que quando alguém diz “Ame ao próximo como a si mesmo,” eles pensam que estão se referindo a algo acima e além deles mesmo. De qualquer maneira, tal referência é, de fato, sem fundação. A moralidade é apenas uma ferramenta para a sobrevivência e a reprodução . . . e qualquer significado mais profundo é ilusório.

Friedrich Nietzsche, o grande ateu do século 19 que proclamou a morte de Deus, entendia que a morte de Deus significava a destruição de todo significado e valor na vida.

Eu acho que Friedrich Nietzsche estava certo.

Mas devemos ser bem cuidadosos aqui. A pergunta aqui não é “Precisamos acreditar em Deus para viver vidas morais?”. Eu não estou afirmando que precisamos. Nem é a pergunta “Podemos reconhecer valores morais objetivos sem acreditar em Deus?”. Eu acredito que podemos.

Ao contrário, a questão é: “Se Deus não existe, valores morais objetivos existem?”. Como Ruse, eu não vejo nenhuma razão para pensar que, na ausência de Deus, a moralidade de rebanho evoluída pelo homo sapiens é objetiva. Afinal, se não há nenhum Deus, o que é tão especial nos seres humanos? Eles são apenas subprodutos acidentais da natureza que evoluíram relativamente recentemente em uma partícula infinitesimal de poeira perdida em um universo hostil e irracional, e que estão condenados a perecer individual e coletivamente em relativamente pouco tempo. Na visão ateísta alguma ação, como, por exemplo, o estupro, pode não ser socialmente vantajosa e, portanto, durante o curso do desenvolvimento humano, tornou-se taboo; mas isso não faz absolutamente nada para provar que o estupro é realmente errado. Na visão ateísta, não a nada realmente errado em estuprar alguém. Portanto, sem Deus não há absolutamente nenhum bem ou mal que se imponha em nossa consciência.

Mas o problema é que valores objetivos de fato existem, e no fundo todos nós sabemos disso. Não há nenhuma razão extra para negar a realidade objetiva de valores morais do que a realidade objetiva do mundo físico. Ações como estupro, crueldade e abuso infantil não são apenas comportamentos socialmente inaceitáveis – elas são abominações morais. Algumas coisas são realmente erradas.

De tal maneira, paradoxalmente, o mal na verdade serve para estabelecer a existência de Deus. Pois se valores objetivos não podem existir sem Deus e valores objetivos, de fato, existem – como é evidente a partir da realidade do mal -, então segue-se inescapavelmente  que Deus existe. Portanto, embora o mal em certo sentido ponha em dúvida a existência de Deus, em um sentido mais fundamental ele demonstra a existência de Deus, já que o mal não poderia existir sem Deus.

Essas são apenas partes da evidência de que Deus existe. O proeminente filósofo Alvin Plantinga expôs cerca de duas dúzias de argumentos para a existência de Deus. A força cumulativa desses argumentos torna provável que Deus exista.

Em resumo, se minhas três teses estão corretas, então o mal não torna improvável a existência do Deus Cristão; pelo contrário, considerando-se o âmbito total da evidência, a existência de Deus é provável. Portanto, o problema intelectual do mal falha em derrubar a existência de Deus.

Mas isso nos leva ao problema emocional do mal. Eu acredito que a maioria das pessoas que rejeitam Deus por causa do mal no mundo não fazem isso realmente por conta de dificuldades intelectuais; na verdade esse é um problema emocional. Elas simplesmente não gostam de um Deus que permitiria que eles ou outros sofressem e, portanto, não nada a ver com Ele. O delas é simplesmente um ateísmo de rejeição. Tem a fé Cristã algo a dizer a essas pessoas?

Certamente que sim! Pois ela nos diz que Deus não é um Criador distante ou uma base impessoal do ser, mas um Pai amoroso que compartilha nossos sofrimentos e dores conosco. O Prof. Plantinga escreveu:

Como o cristão enxerga as coisas, Deus não fica de braços cruzados, friamente observando o sofrimento de Suas criaturas. Ele entra em e compartilha do nosso sofrimento. Ele suporta a angústia de ver seu filho, a segunda pessoa da Trindade, relegado a uma morte amargamente cruel e vergonhosa na cruz. Cristo estava preparado para suportar as agonias do próprio inferno . . . a fim de vencer o pecado, e a morte, e os males que afligem nosso mundo, e para nos conferir uma vida mais gloriosa do que podemos imaginar. Ele estava disposto a sofrer em nosso lugar, a aceitar sofrimento do qual não podemos formar nenhuma concepção.

Quando nós compreendemos Seu sacrifício e Seu amor por nós, isso coloca o problema do mal em uma perspectiva inteiramente nova. Pois agora nós vemos claramente que o verdadeiro problema do mal é o problema do nosso mal. Cheios de pecado e moralmente culpados perante Deus, a questão que enfrentamos não é como Deus pode se justificar conosco, mas como nós podemos ser justificados ante Ele.

Então, paradoxalmente, embora o problema do mal seja a maior objeção à existência de Deus, no fim do dia Deus é a única solução ao problema do mal. Se Deus não existe, então nós estamos perdidos, sem esperanças, em uma vida de sofrimento gratuito e não redimido. Deus é a resposta final ao problema do mal, pois Ele nos redime do mal e nos leva à alegria eterna de um bem incomensurável: comunhão com Ele.

Original (confira o site se souber inglês): http://www.reasonablefaith.org/the-problem-of-evil#ixzz24tCahCuz

Evolução vs. Naturalismo: Porque eles são como água e óleo.

Alvin Plantinga

Professor John A. O’Brien de Filosofia na Universidade de Notre Dame

Tradução: teismocristao.wordpress.com, nenhum direito reinvindicado.

O evolucionismo naturalista – a crença na combinação do naturalismo com a evolução – é autorrefutante, autodestrutivo, atira em seu próprio pé. Pode ser verdadeiro; mas é irracional mantê-lo. A evolução, longe de apoiar o naturalismo, é incompatível com ele, no sentido de que não se pode crer racionalmente nos dois.

Como todos sabem, tem havido uma recente enxurrada de livros atacando a fé cristã e a religião em geral. Alguns desses livros são pouco mais que ladainhas, com muita vituperação, mas curtos em raciocínio, com muitos insultos, mas pouca competência, com muita indignação virtuosa, mas curtos em bom senso; na maioria das vezes eles são movidos pelo ódio do que pela lógica. Claro que há outros que são mais intelectualmente respeitáveis – por exemplo, a contribuição de Walter Sinnot-Armstrong à God? A Debate Between a Christian and an Atheist  [tradução: Deus? Um Debate entre um Cristão e um Ateu]; e a contribuição de Michael Tooley à Knowledge of God¹  [tradução: Conhecimento de Deus]. Quase todos esses livros foram escritos por naturalistas filosóficos. Eu acredito que é extremamente importante notar que o naturalismo em si, apesar do tom presunçoso e arrogante dos assim chamados Novos Ateus, está numa dificuldade filosófica muito séria: não se pode acreditar nele de maneira sensata.

Naturalismo é a ideia de que não há tal pessoa como Deus ou qualquer coisa como Deus; podemos pensar nele como ateísmo de alta octanagem ou ateísmo-plus. É possível ser um ateu sem ascender às alturas elevadas (ou descer às profundezas tenebrosas) do naturalismo. Aristóteles, os antigos estoicos, e Hegel (pelo menos em certos estágios) poderiam apropriadamente afirmar ser ateus, mas eles não poderiam apropriadamente afirmar ser naturalistas: cada um endossa alguma coisa (o Primeiro Motor de Aristóteles, o Nous dos Estoicos, o Absoluto de Hegel) que nenhum naturalista que se preze poderia tolerar.

Nestes dias o naturalismo está extremamente na moda na academia; alguns dizem que ele é a ortodoxia acadêmica contemporânea. Levando em conta a moda de várias formas de antirrealismo e relativismo pós-modernos, isso pode ser um pouco forte. Mesmo assim, o naturalismo certamente é bem difundido, e é promovido em recentes livros populares como O Relojoeiro Cego de Richard Dawkins, A Perigosa Idéia de Darwin de Daniel Dennett e muitos outros. Naturalistas gostam de envolver-se no manto da ciência, como se a ciência de alguma forma apoia, endossa, subscreve, sugere ou pelo menos é excepcionalmente amigável ao naturalismo. Em particular, eles muitas vezes apelam à moderna teoria da evolução como uma razão para abraçar o naturalismo; de fato, o subtítulo do Relojoeiro é Porque a Evidência da Evolução Revela um Universo sem Design. Muitos parecem pensar que a evolução² é um dos pilares no templo do naturalismo (e “templo” é a palavra adequada: o naturalismo contemporâneo tem, certamente, assumido um invólucro religioso, com um sacerdócio secular tão fervoroso para reprimir visões opostas como qualquer mullah). Eu me proponho a argumentar que o naturalismo e a evolução estão em conflito um com o outro.

Eu disse que o naturalismo está numa dificuldade filosófica; isso é verdade em vários aspectos, porém aqui eu desejo me concentrar em apenas um – um relacionado ao pensamento que a evolução dá suporte ou endossa ou é de alguma forma evidência para o naturalismo. Como eu vejo, isto é um erro gritante: evolução e naturalismo não são meros companheiros de cama desconfortáveis; eles são mais como combatentes beligerantes. Não há como aceitar racionalmente tanto o naturalismo quanto a evolução; não há como ser um naturalista evolucionista. O problema, como vários pensadores (C.S. Lewis, por exemplo) têm observado, é que o naturalismo, ou o evolucionismo naturalista, parece levar a um ceticismo profundo e penetrante. Ele leva a conclusão de que nossas faculdades cognitivas ou produtoras-de-crenças – memória, percepção, insight lógico, etc. – são duvidosas e não podem ser confiadas para produzir uma preponderância de crenças verdadeiras sobre crenças falsas. O próprio Darwin tinha preocupações nessa linha: “Comigo”, diz Darwin, “a dúvida horrenda sempre surge se as convicções da mente do homem, que tem se desenvolvido a partir da mente de dos animais inferiores, são de algum valor ou ao menos confiáveis. Iria qualquer pessoa confiar nas convicções da mente de um macaco, caso haja convicções em tal mente?”³

Claramente, essa dúvida surge para naturalistas ou ateístas, mas não para aqueles que acreditam em Deus. Isso se dá porque, se Deus nos criou em sua imagem, então até mesmo se ele nos desenhou por algum meio evolucionário, ele presumivelmente quer que nós sejamos semelhantes a ele em sermos capazes de saber; mas então a maior parte do que acreditamos pode ser verdade, mesmo que seja verdade que nossas mentes se desenvolveram daquelas dos animais inferiores.² Por outro lado, há um problema real aqui para o naturalista evolucionista. Richard Dawkins uma vez afirmou² que a evolução havia tornado possível ser um ateu intelectualmente realizado. Eu acredito que ele está fatalmente enganado; eu não acho que é de alguma maneira possível ser um ateu intelectualmente realizado; mas, de qualquer maneira, você não pode racionalmente aceitar tanto a evolução quanto o naturalismo.

Por que não? Como o argumento procede?4 A primeira coisa a se perceber é que os naturalista também sempre ou quase sempre são materialistas: eles pensam que seres humanos são objetos materiais, sem uma alma ou eu imaterial ou espiritual. Nós simplesmente somos nossos corpos, ou talvez algumas partes de nossos corpos, como nosso sistema nervoso, ou cérebros, ou talvez parte de nossos cérebros (o hemisfério direito ou esquerdo, por exemplo), ou talvez alguma parte ainda menor. Então, vamos pensar do naturalismo como incluindo o materialismo.5 E agora vamos pensar sobre crenças a partir de uma perspectiva materialista. De acordo com materialistas, as crenças, assim como o resto da vida mental, são causadas ou determinadas pela neurofisiologia, pelo que acontece no cérebro e sistema nervoso. A neurofisiologia, além disso, também causa o comportamento. De acordo com a história usual, sinais elétricos seguem, através de nervos aferentes, dos órgãos sensoriais até o cérebro; lá algum processamento ocorre; então impulsos elétricos vão, através de nervos eferentes, do cérebro até outros órgãos, incluindo músculos; em resposta a esses sinais, certos músculos se contraem, dessa forma causando movimento e comportamento.

Agora, o que a evolução² nos diz (supondo que diz a verdade) é que nosso comportamento (talvez, mais exatamente, o comportamento de nossos ancestrais) é adaptativo; visto que membros de nossa espécie sobreviveram e se reproduziram, o comportamento de nossos ancestrais foi propício, em seu ambiente, à sobrevivência e à reprodução. Por isso, a neurofisiologia que causou aquele comportamento também era adaptativa; nós podemos inferir sensatamente que ela ainda é adaptativa. O que a evolução² nos diz, portanto, é que nosso tipo de neurofisiologia promove ou causa comportamento adaptativo, o tipo de comportamento que resulta em sobrevivência e reprodução.

Agora, essa mesma neurofisiologia, de acordo com o materialista, também causa crenças. Porém, enquanto a seleção natural recompensa comportamento adaptativo (recompensa com sobrevivência e reprodução) e penaliza comportamentos mal-adaptativos, ela não se importa, por assim dizer, nem um pouco em relação a crença verdadeira. Como Francis Crick, co-descobridor do código genético, escreve em The Astonishing Hypothesis [A Hipótese Deslumbrante], “Nossos cérebros altamente desenvolvidos, afinal, não evoluíram sob a pressão de descobrir verdades científicas, mas apenas de nos permitir ser espertos o suficiente para sobreviver e deixar descendentes.” Continuando nesse tema, a filósofa naturalista Patricia Churchland declara que a coisa mais importante sobre o cérebro humano é que ele evoluiu; portanto, ela diz, sua principal função é possibilitar que o organismo se movimente apropriadamente:

Resumido ao essencial, um sistema nervoso permite que o organismo tenha sucesso nos quatro F’s: comer, fugir, lutar e se reproduzir  [no original “feeding, fleeing, fighting and reproducing”, piadinha infame da escritora com um sinônimo de “reproducing” que começa com a letra f, tanto em inglês quanto em português]. A principal tarefa do sistema nervoso é levar as partes do corpo até onde elas deveriam estar para que o organismo possa sobreviver. . . .Melhorias no controle sensório-motor conferem uma vantagem evolucionária: um estilo mais sofisticado de representação é vantajoso desde que seja voltado ao modo de vida do organismo e aumente suas chances de sobrevivência [ênfase de Churchland]. Verdade, seja lá o que isso for, definitivamente fica para trás.6

O que ela quer dizer é que a seleção natural não se importa sobre a verdade ou falsidade de suas crenças; ela se importa apenas com comportamento adaptativo. Suas crenças podem todas ser falsas, ridiculamente falsas; se seu comportamento é adaptativo, você vai sobreviver e se reproduzir. Considere um sapo sentado em um nenúfar [família da vitória-régia]. Uma mosca passa por ele; o sapo estende sua língua para captura-la. Talvez a neurofisiologia que faz com que ele faça isso também cause crenças. No que diz respeito à sobrevivência e à reprodução, não fará nenhuma diferença quais crenças sejam essas: se aquela neurofisiologia adaptativa causa crenças verdadeiras (exemplo: aquelas coisinhas pretas são boas para comer), tudo bem. Porém, se ela causa crenças falsas (exemplo: se eu pegar a certa, eu vou virar um príncipe), tudo bem também. De fato, a neurofisiologia em questão pode causar crenças que não tem nada a ver com as circunstâncias atuais da criatura (como no caso dos nossos sonhos); e continua tudo bem, contanto que a neurofisiologia cause comportamento adaptativo. Tudo que realmente importa no que diz respeito à sobrevivência e reprodução é que a neurofisiologia cause o tipo certo de comportamento; se ela também causa crenças verdadeiras (ao invés de crenças falsas) é irrelevante.

Em seguida, para evitar chauvinismo entre espécies, não vamos pensar sobre nós mesmos, mas invés disso sobre uma população hipotética de criaturas muito parecidas conosco, talvez vivendo em um planeta distante. Como nós, essas criaturas desfrutam de percepção, memória e razão; eles formam crenças sobre muitos tópicos, eles raciocinam e mudam de crença, e assim por diante. Vamos supor, além disso, que a evolução naturalista é verdade em relação à eles; isto é, suponha que eles vivem em um universo naturalista e vieram a existir através do processo postulado pela teoria evolucionária contemporânea. O que nós sabemos sobre essas criaturas, então, é que elas sobreviveram; sua neurofisiologia produziu comportamento adaptativo. Mas e quanto à veracidade de suas crenças? O que dizer quanto à confiabilidade de suas faculdades cognitivas ou produtoras-de-crença?

O que nós aprendemos de Crick e Churchland (e o que é, em qualquer caso, óbvio) é isso: o fato de que nossas criaturas hipotéticas sobreviveram não nos diz absolutamente nada a respeito da veracidade de suas crenças ou da confiabilidade de suas faculdades cognitivas. O que isso nos diz é que a neurofisiologia que produz essas crenças é adaptativa, assim como o comportamento causado por essa neurofisiologia. Mas simplesmente não importa se as crenças também causadas por essa neurofisiologia são verdadeiras. Se elas são verdadeiras, excelente; mas se elas são falsas, também está tudo bem, contanto que a neurofisiologia produza comportamento adaptativo.

Então, considere qualquer crença particular da parte de uma dessas criaturas: qual é a probabilidade de que ela seja verdade? Bem, o que sabemos é que a crença em questão foi produzida pela neurofisiologia adaptativa, neurofisiologia que produz comportamento adaptativo. Mas, como nós já vimos isso, não nos dá nenhuma razão para acreditar que essa crença seja verdade (e nenhuma para pensar que seja falsa). Temos que supor, portanto, que a crença em questão é tão provavelmente falsa como verdadeira; a probabilidade de qualquer crença em particular ser verdadeira está na vizinhança de ½. Mas então é massivamente improvável que as faculdades cognitivas dessas criaturas produzam a preponderância de crenças verdadeiras sobre falsas requerida pela confiabilidade. Se eu tenho 1,000 crenças independentes, por exemplo, e a probabilidade de qualquer crença ser verdadeira é ½, então a probabilidade de que ¾ ou mais dessas crenças sejam verdadeiras (certamente um requerimento modesto o bastante para confiabilidade) será menor que 10-58. E mesmo que eu estivesse trabalhando com um sistema epistêmico modesto de apenas 100 crenças, a probabilidade de que ¾ delas sejam verdadeiras, dado que a probabilidade de que qualquer uma delas ser verdadeira é ½, é muito baixa, algo como 0.000001.7 Então as chances de que as crenças verdadeiras dessas criaturas sejam substancialmente mais comuns que suas crenças falsas (mesmo em uma área em particular) são baixas. A conclusão retirada é que é extremamente improvável que suas faculdades cognitivas sejam confiáveis.

Mas é claro que esse mesmo argumento funcionará para nós. Se o naturalismo evolucionista é verdadeiro, então a probabilidade de que nossas faculdades cognitivas sejam confiáveis também é muito baixa. E isso significa que uma pessoa que aceita o naturalismo evolucionista tem um invalidador para a crença de que suas faculdades cognitivas são confiáveis: uma razão para abandonar essa crença, para rejeitá-la, para não mais a manter. Se não há um invalidador para esse invalidador – um invalidador-invalidador, poderíamos dizer – ela não pode, racionalmente, acreditar que suas faculdades cognitivas são confiáveis. Sem dúvida alguma ela simplesmente não consegue não acreditar que elas são; não há duvidas de que ela, de fato, continuará acreditando nisso; mas essa crença será irracional. E se ela tem um invalidador para a confiabilidade de suas faculdades cognitivas, ela também tem um invalidador para qualquer crença produzida por essas faculdades – o que, é claro, engloba todas as suas crenças. Se ela não pode confiar em suas faculdades cognitivas, ela tem uma razão, em ralação a cada uma de suas crenças, para abandoná-las. Ela é, portanto, enredada em um ceticismo profundo e sem fundo. Uma de suas crenças, porém, é sua crença no próprio naturalismo evolucionista; então ela também tem um invalidador para aquela crença.

O naturalismo evolucionista, portanto – a crença na combinação de naturalismo e evolução – é autorrefutante, autodestrutivo, atira em seu próprio pé. Portanto você não pode racionalmente aceitá-lo. Por tudo que esse argumento mostra, ele pode ser verdadeiro; mas é irracional sustentá-lo. Dessa forma, o argumento não é um argumento para a falsidade do naturalismo evolucionista; é, ao invés disso, para a conclusão de que uma pessoa não pode acreditar racionalmente nessa proposição. A evolução, portanto, longe de apoiar o naturalismo, é incompatível com ele, no sentido de que você não pode racionalmente acreditar em ambos.

Que tipo de recepção esse argumento teve? Como você pode esperar, naturalistas tendem a ser menos do que totalmente entusiastas sobre ele, e muitas objeções tem sido trazidas contra ele. Em minha opinião (que, obviamente, algumas pessoas podem afirmar ser parcial), nenhuma dessas objeções é bem-sucedida.8 Talvez a objeção mais natural e intuitive procede como a seguir. Retorne à nossa população hipotética de alguns parágrafos atrás. Concedido, pode ser que seu comportamento é adaptativo embora suas crenças sejam falsas, mas não seria muito mais provável que seu comportamento é adaptativo caso suas crenças sejam verdadeiras? E isso não implica que, desde que seu comportamento de fato é adaptativo, suas crenças são provavelmente verdadeiras e suas faculdades cognitivas provavelmente confiáveis?

Essa é de fato uma objeção natural, em particular dada a maneira em que nós pensamos sobre nossa própria vinda mental. É claro que você tem mais chances de atingir seus objetivos, e é claro que você tem mais chances de sobreviver e se reproduzir se suas crenças são majoritariamente verdadeiras. Você é um hominidio prehistórico vivendo nas planicias de Serengeti; claramente você não vai durar muito se você acredita que leões são amáveis gatinhos crescidos que não apreciam nada mais do que ser acariciados. Assim, se nós assumimos que essas criaturas hipotéticas se encontram na mesma situação cognitiva em que nós comumento pensamos estar, então certamente seria muito mais provável que elas sobrevivessem caso suas faculdades cognitivas fossem confiáveis do que não.

Mas é claro que nós não podemos simplesmente assumir que eles estão na mesma situação cognitiva em que nós achamos estar. Por exemplo: nós assumimos que nossas faculdades cognitivas são confiáveis. Nós não podemos sensatamente assumir isso sobre essa população; afinal, o principal ponto desse argumento é demonstrar que, caso o naturalismo evolucionista seja verdadeiro, então muito provavelmente nós e nossas faculdades cognitivas não somos confiáveis. Portanto, reflita uma vez mais sobre o que nós sabemos acerca dessas criaturas. Elas vivem em um mundo no qual o naturalismo evolucionista é verdadeiro. Portanto, como elas sobreviveram e se reproduziram, seu comportamento têm sido adaptativo. Isso significa que a neurofisiologia que causou ou produziu esse comportamento têm sido adaptativa: têm permitido que eles sobrevivam e se reproduzam. Mas e quanto à suas crenças? Essas crenças foram produzidas ou causadas por essa neurofisiologia adaptativa; é justo. Mas isso não nos dá nenhuma razão para supor que suas crenças são verdadeiras. No que é pertinente à adaptatividade de seu comportamente, não faz diferença se essas crenças são verdadeiras ou falsas. Suponha que a neurofisiologia produz crenças verdadeiras: tudo bem; ela também produz comportamento adaptativo, e é isso que conta para sobrevivência e reprodução. Suponha, por outro lado, que a neurofisiologia produz crenças falsas: novamente, tudo bem: ela produz crenças falsas, mas comportamento adaptativo. Realmente não faz diferença que tipo de crenças a neurofisiologia produz; o que importa é que ela cause comportamento adaptativo; e isso ela claramente faz, não importa que tipo de crenças ela também produza.

A conclusão óbvia, assim me parece, é que o naturalismo evolucionista não pode ser aceito de maneira sensata. Os sumo-sacerdotes do naturalismo evolucionista proclamam em voz alta que crenças Cristãs e até mesmo teístas são falidas e tolas. O fato, todavia, é que a mesa virou. É o naturalismo evolucionista, não a fé Cristã,² que não pode racionalmente ser aceito.

Notas

Esse artigo apareceu originalmente na revista Books & Culture 14 (4), p.37 (link). Copyright © 2008 pelo autor da Christianity Today International/Books and Culturemagazine. Reproduzido com permissão.

1- Co-autoria com Alvin Plantinga na série Great Debates in Philosophy da Blackwell (Blackwell, 2008).

2- Veja “A comment on Alvin Plantinga, ‘Evolution vs. Naturalism’ nessa edição de AntiMatters.

3- Letter to William Graham (Down, 3 de Julho, 1881), em The Life and Letters of Charles Darwin, ed. Francis Darwin (Londres: John Murray,1887), Volume 1, pp. 315-16.

4- Aqui eu darei apenas a mera essência do argumento; para exposições mais completas, veja meu Warranted Christian Belief (Oxford Univ. Press, 2000), chap. 7; ou minha contribuição à Knowledge of God (Blackwell, 2008); ou Natural Selection and the Problem of Evil (The Great Debate), editado por Paul Draper, http://www.infidels.org/library/modern/paul_draper/evil.html.

5- Se você não acha que o naturalismo de fato inclui o materialismo, então tome meu argumento como para a conclusão de que você não pode aceitar de maneira sensata a conjunção tripartite de naturalismo, evolução e materialismo.

6- Epistemology in the Age of Neuroscience, Journal of Philosophy, Vol. 84 (Outubro 1987), pp. 548-49.

7- Meus agradecimentos à Paul Zwier, que fez os cálculos.

8- Veja, por exemplo, Naturalism Defeated?, ed. James Beilby (Cornell Univ. Press, 2002), que contêm uns dez artigos por críticos do argumento, em conjunto com minhas respostas às objeções deles.

Argumento da Experiência Religiosa¹ (só o inicio; temporário)

KAI-MAN KWAN

Tradução: teismocristao.wordpress.com

Origem: The Blackwell Companion to Natural Theology, capítulo de mesmo nome. Nenhum direito reinvindicado.

Uma das principais preocupações da teologia natural é se existem argumentos racionais para a existência de Deus. O Argumento da Experiência Religiosa (AER) afirma que, dadas as premissas adequadas, nós podemos deduzir a partir das experiências religiosas (ERs) da humanidade um grau significativo de justificação epistêmica para a existência de Deus. Nesse capítulo eu irei defender o AER, mas eu não tenho nenhuma intenção de argumentar que apenas uma tradição teísta em particular (como o Cristianismo) é correta aqui. Minha estratégia se focará em uma subclasse de ER, as experiências de Deus ou experiência teísta (ET), e argumentar que ETs fornecem justificação suficiente para a crença em Deus. Eu não digo que esse é um argumento conclusivo, mas eu penso que ele é um argumento razoável que pode contribuir para o caso cumulativo para a existência de Deus.

Alguma clarificação quanto à termos é necessária. Por ER, eu quero dizer uma experiência que o sujeito acredita ser uma experiência de Deus, ou algum ser ou estado de coisas sobrenatural. (Por “Deus” eu me refiro aproximadamente à Base do Ser supremamente poderosa, toda-amorosa e pessoal.) Tal experiência é verídica se o que o sujeito tomou como sedo o objeto de sua experiência de fato existiu, estava presente e o fez ter essa experiência de maneira adequada.² A afirmação de que “S tem uma experiência de Deus” não implica que “Deus existe”. Então o fato de ERs terem acontecido não prejulga a questão da existência de Deus.

As raízes Experienciais da Religião

Deus não é apenas uma hipótese para os religiosamente devotados. Ele é uma Realidade Viva que permeia todas as suas vidas. ERs algumas vezes transmitem uma sensação de realidade tão intensificada que a convicção que elas instilam transforma as vidas dos experimentadores.  Ademais, ERs muitas vezes também transformam o mundo – apenas contemple o imenso impacto de pessoas como Moisés, São Paulo, Agostinho, Wilberforce e outros na civilização Ocidental. Deixe-me seguir com alguns casos concretos de ER.

CASOS DE ET

Caso 1. A história de Christiana Tsai: rainha da câmara escura

Christiana Tsai era uma mulher chinesa nascida em uma sociedade chinesa tradicional no século dezenove. Ela veio de uma família chinesa que era antagônica em relação ao cristianismo, mas foi convertida após tal experiência: um dia ela estava brincando no quintal, e ela notou uma pedra que parecia muito suave na superfície. Ela a virou com uma vareta e descobriu que havia um grande lagarto e vários insetos sob a pedra. De repente, ela ouviu uma voz em seu coração: “Você é como esta pedra, parecendo bonita por fora, mas cheia de mal no interior!” Ela se ajoelhou e orou a Deus por perdão. Imediatamente, ela encontrou paz e sentiu que o fardo do pecado nela foi retirado. Desde então, o mundo lhe parecia como o belo jardim do Senhor. Ela encontrou uma fonte de amor em seu coração, e sentiu que até mesmo os objetos inanimados nas imediações estavam cantando louvor ao Criador com ela.

Ela compartilhou o evangelho com amigos e familiares e muitos foram convertidos também. Todavia, sua mãe era muito resistente e era viciada em ópio. Uma noite, sua mãe teve uma visão de Jesus aparecendo diante dela em Sua glória. Após isso, sua mãe também se converteu e achou fácil abandonar o ópio por completo. Uma vez, Tsai estava lutando sobre uma decisão relativa ao seu relacionamento com seu namorado. De repente, ela pareceu ver Jesus no Getsêmani. Ela se ficou cheia com o Espírito Santo. Ela sentiu a dor de Cristo e soube que Cristo também conseguia compreender sua dor. Ela decidiu abandonar aquele relacionamento. Desde então, ela sentiu que o amor do Senhor nunca havia a abandonado, e sua comunhão com ele tornou-se cada vez mais doce. Porém, a tribulação mais difícil ainda estava por vir.

Um dia uma doença estranha de repente começou a causar-lhe imensos sofrimentos. Até mesmo luz a faria se sentir como sendo esfaqueada. Por vários dias ela simplesmente não conseguia comer, se movimentar, falar ou abrir os olhos. Médicos disseram que ela morreria em breve. Todavia, ela teve uma visão de uma bela coroa subindo ao céu numa noite, mas uma voz lhe disse que ainda não era a hora. Então ela começou a se recuperar. Para simplificar a história, embora ela tenha sobrevivido a doença, ela teve que permanecer na câmara escura pelos próximos 24 anos, e dor tremenda ainda a visitava. Porém, durante tal longo período e na escuridão, ela continuava a sentir fortemente o amor de Deus e a iluminação da Sua luz. Ela continuou a ter comunhão com Deus, e sua vida demonstrou uma espécie de paz e alegria que eram quase palpáveis aos seus visitantes. Muitos deles diriam que eles podiam ver Deus em sua vida.³

Caso 2. Experiência de cristãos chineses sob perseguição

Desde que os comunistas tomaram conta da China, muitos cristãos chineses foram cruelmente perseguidos, mas muitos deles corajosamente mantiveram suas fés, ainda que, à vezes, apenas a negação verbal da fé fosse facilmente assegurar suas libertações. Um crente disse: “Eu sou um prisioneiro, mas meu espírito não pode ser aprisionado. Eu posso livremente ter comunhão com o Senhor de tempo em tempo….Embora minhas mãos estejam algemadas, e meu corpo sinta dor indescritível, meu coração ainda está cheio de paz e alegria” (Xi 1990, p.4). Ele só foi solto depois de 20 anos num campo de trabalho, mas continuou a experimenta a presença de Deus e de Sua graça abundante (Xi 1990, p.8). Outro crente foi preso e trazido perante a multidão para receber críticas. Ele sentiu-se como se estivesse perto do fim de sua vida, mas repentinamente ele teve uma visão de Jesus carregando a cruz e andando no caminho para o Calvário. Imediatamente, ele sentiu uma espécie de alívio por todo o seu corpo, e todo o medo foi expulso de seu coração. Ele então foi capaz de enfrentar a multidão feroz com calma (Xi 1990, p.54). Muitas histórias similares foram contadas no mesmo livro.

Caso 3. A experiência de Sheila

“’Aquele, não perdendo nada de si mesmo, transborda’…. Eu simplesmente vi que era assim…Os únicos sintomas corporais eram lágrimas de alegria….Pareceu, por um momento, como se eu estivesse “Na grande mão de Deus’….Qualquer distinção de sujeito e objeto, ativo e passivo, substantivo e verbo estava perdida….Que não era uma alucinação é, todavia, a convicção mais permanente que eu tenho” (citado em Wall 1995, p.47).

Caso 4. A experiência de Mark

Essa experiência durou mais de 9 meses: “A experiência incluía uma consciência sublime de um poder sustentador personalizado que desafia a descrição. Eu me lembro imaginando se eu havia encontrado Deus ou se Deus havia me encontrado. Eu era infinitamente mais preocupado com e consciente de pessoas e meu ambiente. Percepção mental e originalidade foram aumentadas. Viver atingiu níveis inimagináveis de pura alegria….De inicio eu estava surpreso em descobrir pouca correlação entre minha experiência e as crenças e comportamento da Igreja” (citado em Wall, p.50).

Caso 5. A experiência de Simone Weil

“Em um momento de sofrimento intenso, quando eu estava me forçando a amar, mas sem desejar dar um nome a esse amor, eu senti, de nenhuma maneira preparada para isso (pois eu nunca havia lido os escritores místicos) uma presença mais pessoal, mais certa, mais real que qualquer ser humano, embora inacessível aos sentidos e à imaginação.” Weil observa: “Eu nunca havia previsto a possibilidade daquilo, de um contato real, pessoa a pessoa, aqui embaixo, entre um ser humano e Deus. Eu havia vagamente ouvido falar de coisas desse tipo, mas nunca acreditei nelas” (citado em Layman 2007, p.42).

Caso 6. A experiência de Angelique

Angelique é uma psiquiatra. Ela escreve: “tão longe quanto consigo me lembrar, eu “sabia” da existência de Deus. Qualquer sentido gradualmente se desenvolvendo que eu tivesse de mim mesma como uma entidade era acompanhado de uma sensação de alguém diferente, invisível e infinitamente maior que eu ou qualquer outra “pessoa”, e diferente deles, uma espécie de força todo-poderosa, difundida no mundo, mas que, longe de ser impessoal, era amável e beneficente, com um interesse real em mim….Eu nunca usei nenhum a palavra para essa pessoa – afinal, eu nunca precisei – mas o uso da palavra ‘Deus’ ou ‘Criador’ por outras pessoas parecia se encaixar muito bem. Eu nunca vi ou ouvi nada de que me lembre, mas o conhecimento era tão certo quanto o conhecimento de que outra pessoas continuavam a existir quando saiam da sala…meus pais eram ambos agnósticos e anti-igreja. Não me lembro de religião ter sido um assunto de conversa em casa vez nenhuma. Além de poucos flertes com a Escola Dominical eu não frequentei a igreja até os 13 anos de idade” (citado em Wall 1995, p.77).

Angelique alega que as experiências “tem a qualidade de não apenas serem auto-autenticantes, mas de serem o fundamento ou padrão pelos quais tudo mais em minha experiência subjetiva pode ser, e é julgado. Esse fenômeno em si não é desconhecido em estados anormais de delírio e alucinação,” os quais “invariavelmente levam à deterioração mental progressiva, dor e, eventualmente, desintegração psicológica e social, enquanto o único teste objetivo de experiências espirituais é que elas mostram frutos em maior sensibilidade e maturidade, e levam ao crescimento em todas as áreas da personalidade” (Wall 1995, p.78).

Caso 7. Uma experiência completamente surpreendente

“A experiência em si é muito difícil de descrever. Tomou-me completamente de surpresa. Eu estava prestes a começar a me barbear no momento, entre todas as coisas. Eu senti que minha alma foi literalmente deslocada – por uma boa quantidade de segundos, talvez de 15 a 20 – das trevas à luz. Eu vi minha vida, de repente, como que formando um padrão, e senti que eu tinha, de repente, me familiarizado comigo mesmo novamente…Devo salientar que antes dessa experiência eu nunca havia usado palavras como ‘alma’ ou ‘salvação’ ou qualquer uma dessas palavras ‘religiosamente coloridas’. Mas, para fazer o mínimo sentido do que aconteceu comigo, eu acho imperativo usá-las” (citado em Hay 1994, p.21).

Caso 8. Experiência de projeto

“Minha mente repentinamente começou a pensar sobre a beleza ao meu redor, e considerei a maravilhosa ordem e timing do crescimento de cada flor e erva, e a abundância de todo o crescimento visível acontecendo ao redor; eu me lembro de pensar “Aqui há mente”….Por alguns momentos eu realmente me senti em um com o Universo ou o Poder Criativo que reconhecemos….Eu devo ter sido confrontado com a fonte de todo o ser” (citado em Hay 1994, p.23).

O AER no Século Vinte

Defensores anteriores da ER incluíam tanto teólogos quanto filósofos, por exemplo: Farmer, Frank, Waterhouse e Knudson. Alguns deles afirmavam que ERs providenciavam conhecimento imediato de Deus, que era auto-autenticante. Todavia, filósofos tendiam a ser mais críticos de tais afirmações (C.B. Martin, cap. 5; Flew 1966, cap. 6). Keith Yandell (1993, cap. 8), ele próprio um defensor da ER, era altamente crítico dessa noção. Não importa se essas críticas eram convincentes ou não, elas eram influentes e foram responsáveis pelo surgimento de uma forma de AER que não dependia de reivindicações de auto-autenticação.

O postulado prático que utilizamos em todos os outros lugares é tratar alegações cognitivas como verídicas a menos que haja alguma razão positiva para acreditar que sejam ilusórias. Essa, afinal, é a nossa única garantia para acreditar que a percepção sensorial comum é verídica. Não podemos provar que o que as pessoas concordam em perceber de fato existe independentemente delas; mas nós sempre assumimos que a percepção sensorial de pessoas despertas é verídica, a menos que possamos produzir algum caso positivo para pensar que ela é ilusória em determinada situação. Acho que seria incoerente tratar as experiências de místicos religiosos em princípios diferentes. Desde que elas concordem, elas deveriam ser provisionalmente aceitas como verídicas a não ser que haja alguma razão positiva para pensar que não são. (Broad 1953, p. 197)

Entre os anos cinquenta e setenta, defensores hábeis da ER incluem A.C. Ewing, John Hick, H. D. Lewis, Elton Trueblood, John Baillie, Rem Edwards e H.P. Owen. Porém, nessa época, o verificacionismo – a grosso modo a doutrina de que só sentenças verificáveis em principio eram cognitivamente significativas – ainda era influente, e por isso até mesmo a significância da linguagem religiosa estava em dúvida. A situação agora é bem diferente. Primeiramente, o verificacionismo está efetivamente morto. Em segundo lugar, a partir do final da década de 1970, uma quantidade de filósofos analíticos produziu defesas cada vez mais sofisticadas da ER. Richard Swinburne (1979m cap. 13) defendeu ERs através do seu Princípio da Credulidade (PC), que afirmava que era racional tratar nossas experiências como inocentes (incluindo a ER) até que se prove o contrário. Em outras palavras, ERs eram tratadas como evidência prima facie para a existência de Deus até que houvesse razões para duvidar delas. Isso atraiu muita atenção na filosofia da religião. Houve, é claro, muitos críticos (como William Rowe e Michael Martin), mas Swinburne também inspirou o apoio de uma boa quantidade de filósofos profissionais (como Gary Gutting).

Muitos livros foram escritos sobre ER que basicamente seguiram a linha de pensamento de Swinburne: Davis (1989), Wall (1995), e Gellman (1997). Outros filósofos (por exemplo, Wainwright e Yandell) também trabalharam independentemente rumo a uma conclusão similar. Um marco desse debate é Perceiving God (1991), de William Alston, que habilidosamente defendeu uma abordagem prática-doxástica à epistemologia.Essa abordagem afirmava que era racional confiar praticamente em nossas práticas doxástica socialmente estabelecidas, incluindo a experiência Cristã mística. Seus argumentos são amplamente discutidos e, em geral, levados a sério.

Defensores do AER fizeram progressos consideráveis durante o século vinte. Quando Swinburne inicialmente propôs seu AER através de seu PC no fim da década de 1970, ele foi recepcionado com incredulidade. Naquela época, a opinião prevalente entre filósofos profissionais parecia ser de que esse tipo de argumento não tinha esperança e além dos limites para filósofos respeitáveis. Então nem mesmo Mary Hesse, que simpatizava com a religião, pode suportá-lo naquele momento. Respondendo à Swinburne, embora ela tivesse pensado que seu artigo havia sido “firmemente argumentado”, ela pode descarta-lo em poucas palavras: “tais apelos à ER…não são comuns nem intelectualmente persuasivos nem ao menos inteligíveis no atual ambiente secular” (Hesse 1981, p. 288). Swinburne respondeu: “A  sugestão de que elas não são comuns parece simplesmente falsa…O argumento do meu artigo foi que apelos à ER deveriam ser intelectualmente persuasivos…Quanto à afirmação que apelos à ER não são inteligíveis – eu só posso sugerir que quem acredita nisso deveria se familiarizar com a literatura da religião, a fim de ver o que os apelos significam” (Swinburne 1981, pp. 303-4). Isso é um pouco divertido.

Atualmente, em geral, até críticos entre filósofos da religião o tratam com algum respeito. Agora ele é regularmente tratado em textos sobre filosofia da religião, e eu acredito que ele vai se tornar um dos argumentos clássicos para a existência de Deus. Os antigos defensores continuam a atualizar seus casos (Yandel 1999; Gellman 2001; Hick 2006), e ele também atraiu novos apoiadores (Garth Hallett, Stephen Layman, Grahame Miles, T. J. Mawson, Douglas Geivett). Obviamente, o AER também tem seus detratores (Richard Gale, Matthew Bagger, Nicholas Everitt, James Harris), mas eu penso que até mesmo eles concederão que seus oponentes são seus pares epistêmicos. Afinal, Alston e Swinburne são pesquisadores ativos no campo da epistemologia (e áreas relacionadas), e eles não podem ser descartados como filósofos amadores. Ainda não existe nenhum consenso, mas o AER parece estar vivo e bem.

O AER também é excitante e fascinante porque nos ajuda a repensar assuntos profundos na epistemologia. Penso que os defensores contemporâneos do AER estão explorando um novo paradigma. Também existem desenvolvimentos independentes e em consonância no campo da epistemologia em décadas recentes. Quando Swinburne primeiro propôs, audaciosamente, seu PC, foi algo bastante novo e radical, e ele fez afirmações aparentemente chocantes como “se me parece que Poseidon existe, então é uma boa evidência de que Poseidon existe”. É verdade, era semelhante ao commonsensism [algo como sensismo comum] crítico de Chisholm, mas poucos imaginariam aplica-lo diretamente à ER. Nesse tempo, as deficiências do fundacionalismo tradicional já haviam se tornado aparentes à muitos epistemólogos, mas talvez eles ainda estivessem esperando por uma solução rápida. Agora eles são mais abertos à quadros epistemológicos radicalmente diferentes. Princípios epistêmicos como o PC de Swinburne foram aceitos por filósofos diversos, como Gary Gutting, William Lycan, Robert Audi e Michael Huemer (mas eles não concordem de inteiro sobre seu âmbito de aplicação). Além disso, eles estão explorando teorias se assemelham  mais ou menos a abordagem prática doxástica de Alston, por exemplo: o fundacionalismo (bem fraco) de Catherine Elgin, o foundherentism [algo como fundoerentismo] de Susan Haack, ou o pragmatismo metodológico de Nicholas Rescher. Esse tipo de desenvolvimento epistemológico certamente reforça a plausibilidade inicial do AER.

Notas

1. Eu usei uma parte significante do meu ensaio publicado em Philosophy Compass neste capítulo. (Kwan, 2006b). Agradeço a permissão dada a mim  pelo jornal para fazer isso.

2. A última frase é adicionada para salvaguardar contra as assim chamadas cadeias causais desviantes. Essa condição é difícil de especificar em detalhes. O mesmo problema ocorre para a explicação do conceito de percepção sensorial verídica (ver Grice em Dancy 1998, cap.III). Também deve ser notado que essa é oferecida como uma condição suficiente para veridicidade, e esta pode não ser idêntica à sua condição necessária.

3. Essa história é contada em Tsai (1953), e minha narrativa é extraída da versão chinesa desse livro (Tsai 200).