Outros Argumentos Ateológicos (onisciência e liberdade, etc)

Alvin Plantinga

Origem: God, Freedom and Evil, pp. 65-74

Tradução: teismocristao.wordpress.com

[Trata rapidamente de críticas anti-teístas à la Freud e Marx e do verificacionismo, se concentrando, depois, na ideia de que a onisciência de Deus é incompatível com a liberdade humana]

   Há muitas outras considerações que as pessoas às vezes trazem contra a crença teísta. Entre estas, por exemplo, estão a alegação freudiana de que a crença teísta é uma questão de realização do desejo e a sugestão Marxista de que a religião é um método através do qual um segmento da sociedade oprime outro. Mas são esses alegados fatos supostas razões para pensar que o teísmo é falso? Se sim, elas não conseguem muita coisa. É um fato que aqueles que acreditam em um Pai Celestial o fazem porque, ou parcialmente porque, seus pais terrestres eram inadequados? Eu duvido. Se esse for um fato, porém, é um de interesse psicológico e não teológico. Pode nos ajudar a entender os teístas, mas não nos diz nada sobre a veracidade de sua crença; para esse fim, é simplesmente irrelevante.

   O verificacionismo é outra abordagem ateológica – uma mais comum alguns anos atrás, talvez, do que no presente. Essa é a afirmação de que uma sentença tem sentido ou é literalmente significante somente se ela pode ser empiricamente verificada – ou seja, grosseiramente, somente se sua veracidade pode ser determinada pelos métodos da ciência natural. Como declarações sobre Deus não cumprem essa condição (assim é dito), elas são, falando estritamente, pura bobagem. Como elas não têm nenhum conteúdo e não dizem absolutamente nada, elas não tem nem mesmo a sorte de ser falsas. Uma sentença teológica, na visão em questão, é um absurdo gritante se passando por uma afirmação sensitiva.25 Em seus dias prósperos – os anos 30 e 40 – o verificacionismo desfrutava ampla aceitação, assim como um ar delicioso de ser avant-garde com ele. Porém, hoje em dia, poucos (se é que os há) filósofos estão dispostos a se chamar de verificacionistas, talvez por duas razões. Primeiro, parece ser impossível afirmar o assim-chamado “critério de verificabilidade” de maneira a excluir declarações teológicas e metafísicas sem prestar o mesmo favor a declarações científicas e de senso-comum. Além disso, não parece haver nenhuma razão sequer porque um teísta, ou qualquer outra pessoa que mantenha crenças excluídas pelo critério de verificabilidade, deva sentir a menor obrigação de aceitar esse critério.26 Não direi, portanto, mais nada sobre esse tipo de ateologia.

    O último argumento que eu quero discutir é, talvez, apenas levemente ateológico. Essa é a afirmação de que a onisciência de Deus é incompatível com a liberdade humana. Muitas pessoas estão inclinadas a pensar que, se Deus é onisciente, então seres humanos nunca são livres. Por quê? Porque a ideia de que Deus é onisciente implica que, em qualquer tempo dado, Deus sabe não apenas o que aconteceu e o que está acontecendo, mas também o que vai acontecer. Ele sabe o futuro tão bem quanto o passado. Mas, agora, suponha que Ele sabe que Paul vai realizar alguma ação trivial amanhã – comer uma laranja no almoço, digamos. Se Deus sabe em avanço que Paul vai comer uma laranja no almoço amanhã; e se deve ser o caso que Paul coma uma laranja no almoço amanhã, então não é possível que Paul abstenha-se de fazê-lo – em qual caso ele não será livre para se abster, e portanto não será livre em relação à ação de comer uma laranja. Então, se Deus sabe, em avanço, que uma pessoa vai executar uma determinada ação A, então essa pessoa não é livre em relação a essa ação. Porém, se Deus é onisciente, então para qualquer pessoa e qualquer ação que ela execute, Deus sabia em avanço que ela executaria essa ação. Então, se deus é onisciente, ninguém nunca é livre para realizar qualquer ação livre.

    Esse argumento pode, inicialmente, soar plausível, mas o fato é que ele é baseado em uma confusão. A porção central pode ser dita como se segue:

(49) Se Deus sabe em avanço que X fará A, então deve ser o caso que X fará A

e

(50) Se deve ser o caso que X fará A, então X não é livre para se abster de A.

   De (49) e (50) segue que, se Deus sabe em avanço que alguém tomará certa ação, então essa pessoa não é livre em relação a essa ação. Porém, (49) precisa de mais inspeção. Por que deveríamos pensar que ela é verdade? Pois, nos será dito, se Deus sabe que X fará A, então segue logicamente que X fará A: é necessário que, Se Deus sabe p, então p é verdade. Mas essa defesa de (49) sugere que este é ambíguo; ele pode significar ou

 (49a) Necessariamente, se Deus sabe em avanço que X fará A, então de fato X fará A

ou

 (49b) Se Deus sabe em avanço que X fará A, então é necessário que X fará A.

    O argumento ateológico requer a verdade de (49b); porém, a defesa acima de (49) apoia apenas (49a), não (49b). É, de fato, necessariamente verdade que, se Deus (ou qualquer outra pessoa) sabe que uma proposição P é verdadeira, então P é verdadeira; mas simplesmente não se segue que, se Deus sabe P, então P é necessariamente verdade. Se eu sei que Henry é um solteiro, então Henry é um solteiro é uma verdade necessária; não se segue que, se eu sei que Henry é um solteiro, então é necessariamente verdade que ele é. Eu seu que Henry é um solteiro: o que se segue é, apenas, que Henry é casado é falso; não se segue que é necessariamente falso.

    Então, a afirmação de que a onisciência divina é incompatível com a liberdade humana parece ser baseada em confusão. Nelson Pike27 sugeriu uma revisão interessante dessa velha alegação: ele mantém, não que a liberdade humana é incompatível com Deus ser onisciente, mas com Deus ser essencialmente onisciente. Lembre-se (p. 50) que um objeto X tem uma propriedade P essencialmente se X tem P em todo mundo em que X existe – se, isto é, for impossível que X existisse e não tivesse P. Agora, muitos teólogos e filósofos mantiveram que pelo menos algumas das propriedades importantes de Deus são essenciais a ele nesse sentido. É plausível manter, por exemplo, que Deus é essencialmente onipotente. As coisas poderiam acontecer diferentemente em várias maneiras; porém, se não houvesse nenhum ser onipotente, então Deus não existiria. Ele não poderia ter sido nada-poderoso ou limitado em poder. Mas o mesmo pode ser dito sobre a onisciência de Deus; Ele sabe toda proposição verdadeira e não acredita em nenhuma que seja falsa. Se Ele é essencialmente onisciente, prosseguindo, então Ele não apenas não é limitado em conhecimento; Ele não poderia ter sido. Não há nenhum mundo possível em que Ele existe e falha em saber alguma verdade, ou acredita em alguma falsidade. E a afirmação de Pike é que essa crença – a crença que Deus é essencialmente onipotente – é inconsistente com a liberdade humana.

   Para argumentar seu ponto, Pike considera o caso de Jones, que cortou sem gramado em T2 – último sábado, digamos. Agora, suponha que Deus é essencialmente onisciente. Então, em qualquer tempo anterior T1 – 80 anos atrás, por exemplo -, Deus acreditava que Jones cortaria seu gramado em T2. O argumento de Pike (em suas próprias palavras) então procede como se segue:

  1. ”Deus existia em T1” implica que “Se Jones fez X em T2, Deus acreditou, em T1, que Jones faria X em T2.”
  2. “Deus acredita em X” implica que “X é verdade”.
  3. Não está em poder de alguém, em um determinado tempo, fazer algo que possui uma descrição que é logicamente contraditória.
  4. Não está em poder de alguém, em um determinado tempo, fazer algo que faria com que alguém que mantinha certa crença em um tempo anterior ao tempo em questão não mantivesse essa crença no tempo anterior ao tempo me questão.
  5. Não está em poder de alguém, em um determinado tempo, fazer algo que faria com que uma pessoa que existia em um tempo anterior não existisse nesse tempo anterior
  6. Se Deus existia em T1 e Deus acreditava, em T1, que Jones faria X em T2, então, se estivesse em poder de Jones, em T2, se abster de X, então (1) estava em poder de Jones, em T2, fazer algo que faria com que Deus mantivesse uma crença falsa em T1, ou (2) estava em poder de Jones, em T2, fazer algo que faria com que Deus não mantivesse a crença que Ele manteve em T1, ou (3) estava em poder de Jones, em T2, fazer algo que faria com que qualquer pessoa que acreditasse, em T1, que Jones faria X em T2 (uma a qual era, por hipótese, Deus) acreditasse em uma crença falsa e, portanto, não fosse Deus – ou seja, que Deus (que por hipótese existia em T1) não existisse em T1
  7. A alternativa 1 no consequente do item 6 é falsa (de 2 e 3)
  8. A alternativa 2 no consequente do item 6 é falsa (de 4)
  9. A alternativa 3 no consequente do item 6 é falsa (de 5)
  10. Portanto, se Deus existia a T1, e Deus acreditava, em T1, que Jones faria X em T2, então não estava em poder de Jones, em T2, se abster de fazer X (de 1 e 10)28

   O que dizer sobre esse argumento? As duas primeiras premissas simplesmente tornam explícito parte do que está envolvido na ideia de que Deus é essencialmente onisciente, então não tem nada o que discutir com elas. As premissas 3-5 também parecem corretas. Porém, aquela complicada premissa (6) merece um olhar mais atento. O quê, exatamente, ela diz? Acho que podemos entender Pike, aqui, como se segue. Considere

(51) Deus existia em T1, e Deus acreditava, em T1, que Jones faria X em T2, e estava em poder de Jones se abster de fazer X em T2.

O que Pike quer dizer, creio, é que (51) ou implica

(52) Estava em poder de Jones, em T2, fazer algo que faria com que Deus mantivesse uma crença falsa em T1

ou (51) implica

(53) Estava em poder de Jones, em T2, fazer algo que faria com que Deus não mantivesse a crença que Ele de fato mantinha em T1

ou implica

(54) Estava em poder de Jones, em T2, fazer algo que faria com que qualquer pessoa que acreditasse, em T1, que Jones faria X em T2 (uma a qual era, por hipótese, Deus) mantivesse uma crença falsa e, portanto, não era Deus – ou seja, que Deus (que, por hipótese, existia em T1) não existia em T1.

[O resto do raciocínio consiste em argumentar que tanto (52), (53) e (54) são necessariamente falsos, se Deus é essencialmente onisciente; portanto (51) é falso, se Deus é essencialmente onisciente, o que significa que Deus ser essencialmente onisciente é incompatível com a liberdade humana.] Agora suponha que olhemos estes um de cada vez. (51) implica (52)? Não. (52) diz que estava em poder de Jones fazer algo – nominalmente, se abster de fazer X – tal que, se ele tivesse feito essa coisa, então Deus teria mantido uma crença falsa em T1. Mas isso não segue de (51). Se Jones tivesse se abstido de fazer X, então uma proposição na qual Deus de fato acreditou teria sido falsa; porém, se Jones tivesse se abstido de fazer X em T2, então Deus (já que Ele é onisciente) não teria acreditado, em T1, que Jones fará X em T2 – de fato, Ele teria mantido a crença verdadeira de que Jones se absterá de fazer X em T2. O que segue de (51) não é (52), mas apenas (52’):

(52’) Estava em poder de Jones fazer algo tal que, se ele tivesse feito isso, então uma crença que Deus não manteve em T1  teria sido falsa.

Mas (52’) não é nem um pouco paradoxal e, em particular, não implica que estava em poder de Jones fazer algo que faria com que Deus mantivesse uma crença falsa.

   Talvez possamos ver isso mais claramente se o olharmos através do ponto de vantagem dos mundos possíveis. Nos é dito por (51) tanto que no mundo real Deus acredita que Jones faz X em T2 quanto que está em poder de Jones se abster de fazer X em T2. Agora considere qualquer mundo W em que Jones de fato se abstém de fazer X. Nesse mundo, uma crença que Deus mantém no mundo real – em Kronos – é falsa. Isto é, se W fosse atual, então a crença que Deus de fato mantém teria sido falsa. Porém, não se segue que em W Deus mantém uma crença falsa. Pois não segue que, se W tivesse sido atual, Deus teria acreditado que Jones faria X em T2. De fato, se Deus é essencialmente onisciente (onisciente em todo mundo no qual Ele existe), o que se segue é que, em W, Deus não acreditou, em T1, que Jones vai fazer X em T2; Ele acreditou, pelo contrário, que Jones se absterá de fazer X. Então, (51) não implica de nenhuma maneira que estava em poder de Jones fazer com que Deus mantivesse uma falsa crença em T1.

   E quanto a

(53) Estava em poder de Jones, em T2, fazer algo que faria com que Deus não mantivesse a crença que Ele de fato mantinha em T1?

Aqui, o primeiro problema é um de entendimento. Como devemos entender essa  proposição? Uma maneira é essa. O que (53) diz é que estava em poder de Jones, em T2, fazer algo tal que, se ele tivesse feito isso, então em T1 Deus teria mantido certa crença e não mantido essa crença. Isto é, (53) assim entendida atribui a Jones o poder de criar um estado de coisas contraditório [chame essa interpretação de (53a)]. (53a) é óbvia e retumbantemente falsa; mas não há nenhuma razão sequer para pensar que (51) implica ela. O que (51) implica é, ao contrário

(53b) Estava em poder de Jones, em T2, fazer algo tal que, se ele tivesse feito isso, então Deus não teria mantido uma crença que ele de fato manteve.

Isso segue de (51), mas é perfeitamente inocente. Pois, suponha novamente que (51) é verdade, e considere um mundo W em que Jones se abstém de fazer X. Se Deus é essencialmente onisciente, então nesse mundo W Ele é onisciente e, portanto, não acredita, em T1, que Jones fará X em T2. Então, o que segue de (51) é a inofensiva afirmação de que estava em poder de Jones fazer algo tal que, se ele tivesse feito isso, então Deus não manteria uma crença que Ele de fato (no mundo real) mantém.  Porém, por nenhum motivo imaginável se segue que, se Jones tivesse feito isso, então seria verdade que Deus de fato manteve uma crença que Ele não manteve. Tomada de uma forma (53) é obviamente falsa, mas não uma consequência de (51); tomada de outra, é a consequência de (51), mas de nenhuma maneira obviamente falsa.

   (54) não vai nem um pouco melhor. O que ela diz é que estava em poder de Jones, em T2, fazer algo tal que, se ele tivesse feito isso, então Deus não teria sido onisciente e, portanto, não teria sido Deus. Mas isso simplesmente não segue de (51). Este, é claro, de fato implica

(54’) Estava em poder de Jones fazer algo tal que, se ele tivesse feito isso, então qualquer pessoa que acreditasse em T1 que Jones faria X em T2 teria mantido uma crença falsa.

Pois suponha novamente que (51) é de fato verdade, e agora considere um desses mundos W em que Jones se abstém de fazer X. Nesse mundo

(55) Qualquer pessoa que acreditava, em T1, que Jones faria X em T2 manteve uma crença falsa

é verdade. Isto é, tivesse W sido atual, (55) teria sido verdade. Mas, novamente, no mundo W Deus não acredita que Jones fará X em T2; (55) é verdade em W, mas não é relevante a Deus aqui.  Se Jones tivesse se abstido de fazer X, então (55) teria sido verdade. Não se segue que Deus não teria sido onisciente; pois nesses mundos em que Jones não faz X em T2, Deus não acredita, em T1, que ele faz.

   Talvez o seguinte seja uma possível fonte de confusão aqui. Se Deus é essencialmente onisciente, então ele é onisciente em cada mundo possível no qual Ele existe. Por consequência, não há nenhum mundo possível em que Ele mantenha uma crença falsa. Agora considere qualquer crença que Deus de fato mantém. Pode ser tentador supor que, se Ele é essencialmente onisciente, então Ele mantém essa crença em todo mundo no qual ele existe. Porém, é claro, isso não segue. Não é essencial à Ele manter as crenças que Ele de fato mantém; o que é essencial à Ele é a propriedade bem diferente de manter apenas crenças verdadeiras. Então, se uma crença é verdadeira em Kronos, mas falsa em algum mundo W, então em Kronos Deus mantém essa crença e, em W, não.

   Muito mais deveria ser dito sobre a peça de Pike, e ainda há muitos detalhes fascinantes. Eu vou deixar eles para você, porém. E, para concluir nosso estudo de ateologia natural: nenhum dos argumentos que nós examinamos tem perspectivas de sucesso; todos são inaceitáveis. Há argumentos que não consideramos, é claro; mas até agora a conclusão indicada é que a ateologia natural não funciona.

Notas

25. Uma declaração clássica e legível do verificacionismo é Language, Truth and Logic (Londres: Gollancz, 1946) de A. J. Ayer.

26. Para um relato crítico do verificacionismo veja Plantinga, God and Other Minds, cap. 7.

27. Nelson Pike, “Divine Omniscience and Voluntary Action,” Philosophical Review 74 (Janeiro 1965):27.

28. Ibid, pp 33-34

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